quinta-feira, 6 de outubro de 2016

SINTO O MAR ONDE O MAR PERECEU


Sinto o mar onde o mar pereceu

Sinto o destino e as aves que voam
e o cais onde os barcos regressam do mar.
Sinto os rios que me invadem as palavras
sinto as vozes que morrem ao naufragar.

Sinto as palavras que me doem na alma
e os campos onde a Primavera já morreu.
Sinto o teu corpo ausente do meu corpo
sinto o mar onde o mar pereceu. 

ana paula lavado ©      





domingo, 11 de setembro de 2016

DÓI-ME



Dói-me

Dói-me este mar que carrego no peito
e as estrias dos Invernos que se aproximam.
Dói-me esta voz que cala as memórias
e a cinza dos dedos que afagam o lume.

Dói-me a palidez das noites que passo em surdina
e a ausência dos teus passos na minha cama.
Dói-me o silêncio dos versos inacabados
e as palavras que morrem sem ter verbo.

Dói-me o trilho que me sulca as veias
e a lágrima que me seca a lembrança.
Dói-me o gesto que ignora o infinito
dói-me o amor que morre sem esperança.

ana paula lavado © 


sábado, 20 de agosto de 2016

DIZ-ME! POSSO SER-ME DENTRO DA TUA SAUDADE?



Diz-me! Posso ser-me dentro da tua saudade?

Peguei-lhe na mão dizendo:
“Posso ser-me dentro da tua saudade?”
E abracei-o, com o afecto de quem nasce
todos os dias uma outra vez.
A minha mão continuou pousada
na mão dele
como se o mundo terminasse amanhã.

Sonhei o tempo das acácias rubras
das virgindades da adolescência
e dos pés descalços na terra molhada,
das auroras nas montanhas
e dos poentes no oceano,
das águas cálidas e meigas
e dos rumores nocturnos
dos animais que nunca dormem.

Sonhei o tempo dos amores vadios
das paixões efémeras
e das noites prolongadas pela manhã,
dos dias pintados de muitas cores
e das chuvas a molhar a face.

A minha mão continuou pousada
na mão dele
num abraço que sente saudades diferentes.

“Diz-me! Posso ser-me dentro da tua saudade?”

ana paula lavado © 


terça-feira, 9 de agosto de 2016

PRECISO DE TEMPO



Preciso de tempo

porque estamos mortos?

o poeta morre-se no palco
enquanto as letras permanecem vivas

a presença dos homens é apenas um verbo

a princípio eram todos pecadores

agora todos são santos:
Senhor, tem piedade dos santos não pecadores
que deles será o reino dos céus

o silêncio é mortal
e a presença das palavras é uma vertigem

vertigem, é a ansiedade
de uma rua suspensa de memória

a memória é uma tarde romântica
sem humildade no fim do mundo

no fim do mundo
há o princípio de todos os tempos

tempo
preciso de tempo
e não tenho tempo.

ana paula lavado ©

 fotografia do google


domingo, 27 de março de 2016

A INQUIETAÇÃO DAS AVES



A inquietação das aves

Confesso que me atordoa a espiral dos dias
e a inquietação das aves em dia de tempestade.
O pensamento converge numa parábola irregular
e as mãos tornam-se inúteis perante a ferocidade alheia.

Temo duvidar das palavras premeditadas
e dos anjos de asas negras que me invadem o sossego.

Outrora, quando a luz era mais clara,
e a selva se limitava à irracionalidade das coisas,
a urgência dos gestos era terra úbere
e a virgindade dos seios nunca era violada.

Restam as ruas de travessia interdita
a incoerência dos dias casados de solidão
e a inquietação das aves, em dia de tempestade.

ana paula lavado ©


Fotografia - Francisco Navarro

segunda-feira, 21 de março de 2016

SÓ EU, E O RIO



Só eu, e o rio

Acabaram os abraços ao fim da tarde
Os enlaces das palavras, os desejos em desvario
Acabaram os silêncios de quem parte

Agora só eu
E o rio

E as margens cobertas de virgens inquietas
O leito, peregrino dos amores que partiram

Ao longe, talvez, perto da Foz
Onde pipilam as gaivotas em dia de calmaria
E se imergem os sonhos em hora de maré preia

Só eu
O rio
E a minha nudez de sereia.

ana paula lavado ©



segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ESSÊNCIA



Essência

Estou reduzida a nada.
As moléculas que integravam
a minha alma
já não têm essência.
Estão dispersas entre coisas vãs
e guerras que acabei por não vencer.

Já não sou árvore
nem pássaro
nem azul.

Os demagogos do mundo
acabam sempre por vencer.


ana paula lavado © 

O QUE FICA



O que fica

Prende-me os sonhos
nesta vertigem embriagada.
As águas do rio
cantam glosas imperfeitas
murmurando o caudal
numa agitação incompleta.
Foi o mar
que levou as sereias
foi o vento
que silenciou as madrugadas.

O que fica
é a inutilidade dos dias.


ana paula lavado © 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

QUEM É DEUS?



Quem é Deus?
                                                                                                                                                                                                                                            
Apregoa-se a paz
Em nome de Deus

Fazem-se guerras
Em nome de Deus

Quem é Deus?


ana paula lavado © 



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

COISAS SIMPLES



Coisas simples

Deixa que te mostre as coisas simples
Com as quais amamos as coisas simples
E trocamos sorrisos simples
E somos simples.

Tudo o mais é demagogia.

ana paula lavado © 


DESORDEM



Desordem

Não sei com quantas faces se constrói
a desordem que percorremos a todas as horas,
nem sei quantas moléculas são necessárias
para que o tempo tenha a estrutura simétrica
ao movimento de rotação da Terra.

Não é nas coisas físicas que me detenho.
Os livros de cabeceira enchem as noites vazias
e as palavras esdrúxulas vão servindo
de complemento à imaginação.

Repara! Há noites em que nem as estrelas acordam
nem eu adormeço.

Penso na morte, mas as ruas são sempre iguais.

ana paula lavado © 


terça-feira, 10 de novembro de 2015

SEMPRE ACONTECE NOS DIAS NÃO



Sempre acontece nos dias não

Sempre acontece nos dias não
a tristeza que não queremos nos dias sim.
Como um pássaro que voa sem asas
ou como um campo de lírios, sem lírios.

Quem sabe, um dia morreremos
quem sabe, antes do tempo de morrermos
quem sabe, antes da hora marcada.

Isto é o resumo da vida, mais nada.
Um tempo, um contratempo, uma ida em contramão.

Sempre acontece nos dias não!


ana paula lavado ©  

Fotografia - Francisco Navarro

OS TEUS PASSOS



Os teus passos

São como as aves,
os teus passos,
voam no ar
e nos espaços,
que cabem nos abraços
dentro de mim.

ana paula lavado © 

Fotografia  - Francisco Navarro


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

VENDAI-ME OS OLHOS



Vendai-me os olhos

Deitei a terra ao chão
nas raízes que o orvalho prolongou.

E na sombra escura
crescem álamos selvagens
sedentos de justeza,

mas a chuva sonâmbula
seca prematuramente
a hora tardia.

Vendai-me os olhos
que não verei a morte.

ana paula lavado©



segunda-feira, 14 de setembro de 2015

FAZ UM POEMA OUTRA VEZ



Faz um poema outra vez

Despe todas as palavras
como um vestido de linho

desnuda letra a letra
no silêncio do caminho

desflora o restante
numa alma de nudez

junta as letras já desnudas
e faz um poema outra vez.

ana paula lavado © 


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

DEIXA O MEU CORPO MORAR NO TEU CORPO



Deixa o meu corpo morar no teu corpo

Deixa o meu corpo morar no teu corpo
como um pássaro de asas soltas
no alto dos montes.

Dá-me um rio,
nascido das tuas fontes,
com margens inquietas
e rumores tardios.

Estreita-me a saudade
no maior dos desvarios
e dissipa a ausência das noites
quando as noites não têm virtude.

Dá-me a tua mão,
somente a tua mão desnuda,
o silêncio da tua voz muda,
e a calma dos teus olhos prudentes.

Serei corpo alvo dos teus anseios,
travo doce na calma meus seios,
o amanhecer no tempo dos ausentes.


ana paula lavado ©  

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

SENTA-TE ESCREVE



Senta-te e escreve

Senta-te e escreve
dizem muitos.
Não há palavras interditas
não há palavras malditas
não há orgasmos por acabar.

Senta-te e escreve
dizem muitos.
E o sentimento que se procura em vão?
E as palavras que se matam em combustão?
Não há escrita sem palavras
nem palavras sem devaneio.
Há um mundo
que nos envolve em contradições
e contradições que nos prendem por permeio,
há a exasperada inquietude de não existir
de não pertencer
de não exercer
de não ser.
Vou, porque faz parte do verbo ir
sem convicções e sem promessas.
Tirem-me o peso das reacções convexas
e das masturbações solitárias.

Senta-te e escreve
dizem muitos.
Onde há palavras interditas
onde há palavras malditas
onde há orgasmos para orgasmar?

ana paula lavado © 

domingo, 2 de agosto de 2015

INCONGRUÊNCIA MENTAL

Incongruência mental

Há dias que são todas as vidas
há minutos que são todos os anos
há instantes que são desenganos
há segundos que são horas perdidas.

E quando desencantam os momentos
os pedaços que nos levam sem demora,
a mesquinha espera de quem vai embora
persiste na desonra dos tormentos.

Para onde se parte, se a hora é indevida
para onde se vai, se o rumo é indiferente.
Não quero mais tempo, não quero mais vida
não quero mais amor dentro do meu ventre.

ana paula lavado ©

sábado, 13 de junho de 2015

DEIXA-ME MORRER DE AMOR



Deixa-me morrer de amor

De todas as coisas do mundo
A que mais me desordena
Não é ter o olhar profundo
Não é ter a alma pequena.

Nem os recados enviados
De gentes que não têm lisura
Nem os adjectivos velados
De mentes sem compostura.

É algo que vem de dentro
Do corpo, da alma, da consciência
Fazendo desse ponto o epicentro
Da razão de toda a existência.

E antes que a vida me condene
E que a morte me leve em dor
Deixa que o mundo me desordene
Deixa que eu possa morrer de amor.


ana paula lavado ©  

quarta-feira, 6 de maio de 2015

POEMA-ME AS LETRAS




Poema-me as letras

As palavras já não existem,
meu amor.
Tivemo-las à tardinha
quando o encontro
era o princípio e o fim
de todas as coisas.
Agora,
é o silêncio que demora
a espera da morte
para que o dia e a noite
não se tornem iguais.

Poema-me as letras
meu amor,
poema-me as letras
e os fios de cabelo
que ficaram desalinhados.

No outro dia,
no dia em que a chuva
não parou de cair,
demorei-me no poente,
como se fosse aquele
em que o beijo
calava todas as palavras
e todas as palavras
se calavam no beijo.
Mas as palavras
estavam gastas,
meu amor.
Gastas como as letras
e como os fios de cabelo
que ficaram desalinhados.

Talvez outro dia,
à tardinha,
sem o princípio
e o fim de todas as coisas,
não sejam precisas mais palavras
nem mais poentes.

Poema-me as letras,
meu amor,
poema-me as letras
e os fios de cabelo
que ficaram desalinhados.

ana paula lavado ©