sábado, 13 de junho de 2015

DEIXA-ME MORRER DE AMOR



Deixa-me morrer de amor

De todas as coisas do mundo
A que mais me desordena
Não é ter o olhar profundo
Não é ter a alma pequena.

Nem os recados enviados
De gentes que não têm lisura
Nem os adjectivos velados
De mentes sem compostura.

É algo que vem de dentro
Do corpo, da alma, da consciência
Fazendo desse ponto o epicentro
Da razão de toda a existência.

E antes que a vida me condene
E que a morte me leve em dor
Deixa que o mundo me desordene
Deixa que eu possa morrer de amor.


ana paula lavado ©  

quarta-feira, 6 de maio de 2015

POEMA-ME AS LETRAS




Poema-me as letras

As palavras já não existem,
meu amor.
Tivemo-las à tardinha
quando o encontro
era o princípio e o fim
de todas as coisas.
Agora,
é o silêncio que demora
a espera da morte
para que o dia e a noite
não se tornem iguais.

Poema-me as letras
meu amor,
poema-me as letras
e os fios de cabelo
que ficaram desalinhados.

No outro dia,
no dia em que a chuva
não parou de cair,
demorei-me no poente,
como se fosse aquele
em que o beijo
calava todas as palavras
e todas as palavras
se calavam no beijo.
Mas as palavras
estavam gastas,
meu amor.
Gastas como as letras
e como os fios de cabelo
que ficaram desalinhados.

Talvez outro dia,
à tardinha,
sem o princípio
e o fim de todas as coisas,
não sejam precisas mais palavras
nem mais poentes.

Poema-me as letras,
meu amor,
poema-me as letras
e os fios de cabelo
que ficaram desalinhados.

ana paula lavado © 


sexta-feira, 24 de abril de 2015

ÀS VEZES



Às vezes

Às vezes…

Às vezes, as portas fecham-se com áspera rudeza
e só o granito das ruas se move por companheiro.

Às vezes…

Às vezes, os sons perdem-se nas encruzilhadas
e o sentido das coisas é tão inverso
que deixa de haver sentido na verdade.
No tempo dos ausentes, o pensamento interrompe-se.
Adultera-se a mente com frases de circunstância
e faz-se da realidade um filho de um deus menor.

Às vezes…

Às vezes, os gestos metamorfoseiam-se
em outros gestos
absortos em interjeições imaginárias
e palavras caiadas por metáforas.
Não digam que há vida para além da noite
porque a madrugada só existe na invenção da mente.

Às vezes…

Às vezes, a transformação da verdade
é a única ponte existente entre o bem e o mal
e a razão para o mistério das coisas.

Às vezes…

Às vezes…

ana paula lavado © 


domingo, 19 de abril de 2015

A PORTA


A porta

Abro a porta
e nada vejo.

Nem a luz dum candeeiro
nem a sombra da neblina.

A porta é um vão
criado em contra-mão
desajustado da rotina.

Uma parede vazia
um retrato por pendurar
uma cama despida
uma nudez por amar.

Um silêncio amortecido
um ventre desalinhado
um verso destruído
um poema amordaçado.


ana paula lavado © 

Fotografia do google 

domingo, 5 de abril de 2015

FAZ DA MORTE UMA EXISTÊNCIA IMPEDIDA



Faz da morte uma existência impedida

Deixa que os olhos te digam a verdade
e não ocultes com trejeitos, o que o mundo roubou.
Não desvies as palavras em sentidos inversos
como se a vida apagasse toda a eternidade.
A eternidade levar-te-á os teus cansaços
porque a morte só acontece na multidão dos tempos.

Ah! Deixa os desalentos
e caminha como se o abismo não vivesse.
A vida é um rio que corre sem fronteiras
é um astro que vibra de todas as maneiras
é um chão que se apega e te torna imortal.

Vem! Estende os braços ao mundo e grita
faz do transtorno uma frase interdita
e sobe ao cume mais alto de todas as serranias.
É no teu íntimo que terás a imensidão dos dias
é na tua fome de verdade que alcançarás o infinito.

A vida é um gesto que se faz num só grito
numa só vontade, numa só firmeza, numa só paixão.
Vem! Estende os braços e agarra o mundo na tua mão
contorna o destino, agarra a vastidão da vida
e faz da morte uma existência impedida!

ana paula lavado © 


domingo, 15 de março de 2015

NÃO HÁ MORTE SEM RESSURREIÇÃO



Não há morte sem ressurreição

Tantas horas o tempo leva
à volta da cidade indiferente.
E os passos e a gente
os fantasmas arrependidos
as palavras sem abrigos
os gestos degolados de comunhão!

Vire-se o mundo à exaustão
denunciem-se os descrentes
os falsos deuses ausentes
os corpos profanados sem glória.
Não há vida sem estória
não há morte sem ressurreição.

E quando um grito diz não
erguendo ventres de profecia
a luz da cidade silencia
a voz estóica do entendimento.
Olhai! Vê-de o sofrimento
dos que, mudos, gravitam nas ruas
de olhar esmagado, de lágrimas cruas
de saudades impossíveis de omitir.

Tantas horas o tempo pode parir
nos úteros prenhes de inglória.
Não há vida sem estória
não há morte sem ressurreição! 


ana paula lavado ©  

sexta-feira, 13 de março de 2015

AGARRO O TEMPO



Agarro o tempo

Agarro o tempo e penetro-o na pele
como lança em brasa por um fogo feiticeiro.
Hoje é o primeiro
o segundo, o nono
o infinito dos dias que transformo
e conjugo na palma das mãos.

Como um verso oblíquo e sem nexo
um ângulo agudo ou convexo
uma folha de papel por escrever.
Hoje é o primeiro
o segundo, o terceiro
o infinito dos dias, o feiticeiro
que a morte não consegue perverter!

ana paula lavado © 


sábado, 21 de fevereiro de 2015

E SE UM DIA



E se um dia

E se um dia vierem
as folhas gastas de invernia
trajadas de outra madrugada
vestidas de outra fantasia,

e se um dia voltarem
os olhos presos na solidão
cobertos de fogo de lava
incendiados de outra paixão,

e se um dia chegarem
as mágoas doridas do peito
veladas na transição do tempo
ocultas por outro trejeito,

e se um dia apagarem
os dias que o tempo matou
a vida voltará Primavera
e o tempo de invernia acabou!

ana paula lavado © 


domingo, 8 de fevereiro de 2015

ANTES DO MUNDO



Antes do mundo

Antes do mundo, era o mar
as falésias despenhadas de preconceito
os limos desalinhados de pretensão
as águas vazadas fora do leito.

Antes do mundo, era o céu
os penhascos desmanchados em neblina
as mãos desnudas de trejeito
os ritmos alegóricos em surdina.

Antes do mundo, era o ventre
a placenta reservada sem pejo
os sibilos da noite sem constelação
os silêncios da morte por desejo.

Antes do mundo, eras tu
a escolha imperturbável da vida.

Depois do mundo, sou eu
alma crua, insulada, despida!

ana paula lavado © 


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

LINHA DO HORIZONTE



Linha do horizonte

Vou partir antes do tempo de ser poeta.
A sombra das pálpebras escondida entre a mágoa e a dor
já não resiste ao contorno de qualquer verso.
Fora deusa, condensada entre fios de neblina
que perpassam um qualquer passo na rua.
Das linhas que produzem as searas trouxe o ouro
e das rugas esmagadas pelo negrume
o testemunho que a vida concede aos crentes.

Não! Não quero ventres escondidos de prazer
nem gestos degolados das partituras musicais.
Não me tragam palavras ocas, prenhas de oceanos
nem pátrias onde se falam todas as línguas.
Quero um farol erguido no alto de um promontório
quero um grito esventrado nesta alma inquietada
quero a fome das letras que me ocupa a memória
quero o timbre desalinhado dum prólogo por escrever.

Do resto do mundo, quero a quietude
os dedos ásperos da verdade e da consciência
quero a exactidão
quero a reminiscência
quero a vida na proporção exacta de todas as coisas.
E na sombra das pálpebras quero o horizonte
o contorno da resistência de um qualquer verso
para lá da linha que um qualquer poeta possa escrever.

ana paula lavado © 

sábado, 3 de janeiro de 2015

CONVOQUEM A GUERRA



Convoquem a guerra

Convoquem a guerra
iniciem a batalha
que a minha raiva
ainda agora começou.
Não foram os ventos que trouxeram tempestade.
Foi o sangue que ferveu
foi a lava que derreteu
foi o fogo que devastou fora do leito.
Hoje começa a era ressuscitada
escalavrada de boas maneiras
fora do contexto prosaico da cortesia.

- há quem diga que isto não é poesia -

Chamem-lhe outro nome qualquer.
Uma coisa
um objecto
um abjecto
um palavrão.

- há quem diga que isto é libertação -

Um dia tive uma Kalashnikov encostada ao peito
bem apontada ao lado esquerdo
e não falei.
Também não morri
também não matei
também não me mataram
também não mandaram matar
- me -.

- há quem diga que só se morre uma vez -

A guerra começou!
Tragam as canetas
as ferramentas
as tintas
os pincéis,
os palavrões carregados de decibéis
as frases anacrónicas da Literatura.

Eu levo as palavras escabrosas,
- que as outras não têm compostura -
as metáforas sem lisura
as interjeições que não vêm na gramática.

- há quem diga que mexo nas letras com prática -

E vamos à guerra
e vamos à batalha
e vamos à luta
que a verdade há-de vencer!


ana paula lavado © 


terça-feira, 28 de outubro de 2014

ÂNGULO CONVEXO



Ângulo convexo

Visto as mesmas roupas há muito
talhadas na mesma simetria
nos mesmos ângulos convexos.
Tenho de lhes mudar as aberturas
aprofundar as cinturas
trocar a caxemira pelo batom.
Deixar que o tecido se desenlace
subir a bainha
fazer um reenlace
franzir os folhos
e pousar os olhos
nas linhas onde sobressai a desenvoltura.
E medindo a altura
a graça e o comprimento
aumentarei o horizonte
farei uma prega na deslembrança
no aperto, uma trança
e uma simbiose na fronte.

ana paula lavado © 


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

NÃO EXISTE MUNDO



Não existe o mundo

Não esperes o mundo
que ele não existe.
A incongruência das coisas
está acima das tuas ambições
e das tuas fraquezas.
O teu silêncio,
se é uma defesa para os outros
é uma estrangulação para ti mesmo.

Não! Não existe o mundo.
Existem coisas ásperas
pessoas escabrosas
atitudes proveitosas.

A maldição lenta
o escárnio desprezível
e a malvadez pormenorizada
constroem uma cúpula
que te circunda
que te reprime
que te transforma numa fome desfigurada.

Tu, não és nada
o mundo não é nada
todo o mais é desumanidade.


ana paula lavado © 

Fotografia - Horácio Graça

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

À LUZ INQUIETA



À luz inquieta

à luz inquieta
do ponto mais alto
onde a névoa desperta
o infinito dos astros

flameia uma cor
de clareza indiscreta

e o mar engrandece
do alto dos mastros.

ana paula lavado © 


Fotografia - Marinha Portuguesa - Navio Escola Sagres

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

SOU O TEMPO, NA SOLIDÃO DO TEMPO


Sou o tempo, na solidão do tempo

Não espero que o tempo me dê constelações.
Nas veias, o travo amargo da infertilidade da vida,
ergue-se na penumbra da incoerência dos dias.
Na boca, o presságio virginal da solidão dos poetas,
tem o sabor da nudez das coisas,
quando a nudez das coisas
tem o sabor da ignomínia dos tempos.
Não conheço esta rua. Não sou deste país.
Não sou deste mar, não sou desta terra
não sou deste ar, não sou deste vento.
Sou o tempo, na solidão do tempo.

ana paula lavado © 


Fotografia - Francisco Navarro

terça-feira, 5 de agosto de 2014

QUANDO SINTO A TUA MÃO


Quando sinto a tua mão

Quando sinto a tua mão
em redor da minha cintura
e o mosto do teu beijo
soletrado em arquitectura,

O perfume das flores silvestres
declama versos espontâneos
e a rima da tua pele
arrepia as rugas dos meus anos.

Se um dia tiver da vida
todos os sois da minha loucura
quero o teu beijo na minha boca
quero a tua mão na minha cintura.

ana paula lavado © 



segunda-feira, 4 de agosto de 2014

TENHO EM MIM ESTA DOR


Tenho em mim esta dor

Tenho em mim esta dor
de estar constantemente descontente
de ter nos olhos o infortúnio
de quem não sabe, de quem não sente
de não parir nas minhas mãos
o fruto parido de um ventre.

Tenho em mim esta dor
de ansiar mais do que o sonho
por si deveras pressente
de me imergir nesta loucura
inevitável, insaciada e demente.

Tenho em mim esta dor
mais dor, do que a própria dor consente.


ana paula lavado ©