quinta-feira, 11 de abril de 2013

À NOITE




À noite

À noite, regressa o silêncio.
Fechamos as nossas bocas
como se não fosse preciso dizer mais nada.

E amamo-nos silenciosamente!

ana paula lavado © 


quarta-feira, 3 de abril de 2013

TANTO O AMOR




Tanto o amor

Tanto o amor
e há tão pouco.

Não como o meu
ou como o teu,
amor louco.

Mas o que se fala
que anda de boca em boca.

Ai, esse amor
é coisa pouca!

ana paula lavado © 


segunda-feira, 25 de março de 2013

O MAR




O mar

O silvo manifesta-o bravio
Onde as vagas naufragam navios
E a cor enegrece o horizonte.
E eu olho-o com a amplidão do mundo
Na perpétua viagem, de olhar fecundo
Bebendo eternamente da sua fonte.  
  
Os que não vêem a sua imensidão
Sinto-lhes pena, vivem de solidão
Das imagens mortas do destino.
Não entendem o rosto da lua cheia
Não tragaram as águas da maré preia
Não amaram o seu fulgor paulatino!

ana paula lavado © 




quarta-feira, 6 de março de 2013

QUE MAIS TE POSSO DIZER, SENÃO TERNURA!




Que mais te posso dizer, senão ternura!

Que mais te posso dizer, senão ternura!
Todos os meus passos caminham de encontro
ao perfume da tua boca. E nela me encho
de todas as emoções que o corpo reclama.
Sente-as no meu peito, vê como flama
nas palavras misteriosas que invento.
Perdoa, meu amor, este atrevimento
esta ousadia de querer tão insanamente
as pálpebras dos teus olhos contidas
nas minhas. Que mais te posso dizer
senão ternura!
De todas as coisas, a mais pura
é amar-te assim, tão ternamente.

ana paula lavado © 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

ERGO AS MÃOS




Ergo as mãos

Ergo as mãos a Deus e peço clemência
que nesta escravatura já muito pequei.
Sei que não sou límpida, sei que não sou pura
nos andarilhos das vielas por onde andei.
Não há pureza que se glorifique nesta humanidade
não há glória que não padeça de impunidade
não há rei nem lei que nos comande.
Sou produto da perversa infâmia
sou escrava da impiedosa maldição.
Não creio na verdade, não creio na razão
não creio na decência da grandiosidade
não creio na compostura de qualquer condição.

E em Ti, Deus, que ainda creio
rogo o ensinamento da verdade.
Já não me restam muitos futuros
e em todos sobeja ambiguidade.
Desapega-me da violência da hipocrisia
destrona os reis da dinastia
que fazem da ciência podridão.
Sei que não sou pura, não.
Mas antes de decretares o meu final
sacia-me a fome de verdade
sacia-me a procura da razão!

ana paula lavado © 

 (foto da internet)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

VOLTEI AO MAR




Voltei ao mar

Voltei ao mar
Porque nele me engrandeço

Na alga pura
Pouso a minha boca

Sente a minha boca
Molhada de sal

Que da tua boca trarei
O beijo que careço!

ana paula lavado © 

(foto da internet)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

PODEIS!




Podeis!

Podeis matar-me os pés
Se deles retirardes a carne e o sangue,
Podeis atar-me a mãos
Para que elas não verbalizem quaisquer paradoxos,
Podeis mutilar-me o corpo
Para que dele não expire qualquer sombra de glória,
Podeis retirar-me a tinta, a caneta, o papel,
Desmentir as minhas frases interditas
E rasgar a sombra da minha pele,
Podeis ocultar o meu vício de verdade,
Podeis negligenciar a minha força de vontade,
Podeis até dizer que não existe quem sou,

Mas jamais calareis o grito da minha voz
Jamais roubareis o caminho por onde vou!

ana paula lavado © 

pintura "el grito" de edvard munch

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

PALAVRAS




Palavras

Não te digo palavras infecundas, meu amor,
Que delas terás apenas prazer efémero.

Dou-te o silêncio das letras,
O gesto dócil das minhas mãos
Quando percorro o teu corpo
Em busca de alimento.

Será o tempo o escultor
Que me trará a felicidade dos dias.

E no prolongar dos dias
Dar-te-ei a fecundidade das palavras.

ana paula lavado © 


(foto da internet)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

AS TUAS LETRAS




As tuas letras

O meu poema tem as tuas letras
E em cada uma o meu anseio.

Porque as dispo assim
Tão de repente?

Sabem a mar, quando as concebo
Sabem a amor, certamente.  

ana paula lavado © 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ÉS TANTAS VEZES O LENÇOL




És tantas vezes o lençol

És tantas vezes o lençol
Que cobre a nudez do meu seio
Que sinto, nas noites que não tenho
O lençol do teu corpo em anseio.

E os afagos! Ah os afagos
Com que arrendas a cor dos meus dedos
São palavras que murmuram na pele
Como as ondas dos nossos segredos.

E quando à noitinha me desnudo
E te entrego o meu corpo por inteiro
És tantas vezes o lençol
Que cobre a nudez do meu seio.

ana paula lavado © 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

ELES LEVAM TUDO




Eles levam tudo

Soltem os uivos à noite
Porque o chão já não tem uvas.
O mar está seco
Mesmo sem estio
Como se o leito de qualquer rio
Já não tivesse imensidão.

Eles levam tudo
Eles levam tudo
Até as uvas do chão.

E vós que direis?
Açoitados no corpo
Fustigados na alma
Roubados na honra
Extorquidos na justiça
Não sois mais que a cobiça
Da devassidão do poder.

Eles levam tudo
Eles levam tudo
Até o pão para comer.

E o povo morre à fome
Morre à fome sem ter pão.

Eles levam tudo
Eles levam tudo
Até as uvas do chão.

ana paula lavado © 

(foto do google)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

VERSO



Verso

o claro silêncio das palavras
plácidas ou inquietas
no espaço inefável do universo,

plasmadas uniformemente
isentas de risco calculado
são a linha improferível de um verso.

ana paula lavado © 

 (foto do google)

A TUA BOCA



A tua boca

O que desejo tantas vezes da tua boca
Esmerando os anseios, por ser tão pouca
As vezes que a tenho por inteiro.

E quando a tenho, que mais eu quero?
Tenho tudo, tudo aquilo que espero
Fazer da tua boca, o meu cativeiro.

ana paula lavado © 

(foto do google)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O MEU POEMA SEM NOME



O meu Poema sem Nome

De que nos serve, na quarta à noite,
naquele bar de artistas,
confundirmos a personagem
e tomarmos para nós
o papel principal!
Nem a solidão nos abandona sem deixar recado,
nem as palavras que são ditas
com coragem ou com despudor,
nos alheiam da nossa memória.
Os olhares vagueiam,
os rostos transfiguram-se,
distraídos do cansaço
ou submersos num copo de agonia!
Esquecem-se as vontades e as dores,
enquanto a noite
se prolonga e desajusta da hora marcada.
O silêncio absorve-nos, arrebata-nos
e alheia-nos da verdade.
Só a solidão se senta a nosso lado e nos provoca.
Sorri, maldosa e incomplacente,
e vai-nos enchendo
o copo vazio com outra dor.
Mas a alma permanece intacta.
Resiste estoicamente,
trazendo dentro de si mais uma poesia sem nome,
dolorosa ou sem pudor,
que vai enchendo de ouro
um qualquer papel amarrotado
onde se escreve
um qualquer poema sem nome!

ana paula lavado in UM BEIJO...SEM NOME, Corpos Editora, 2008

(aguarela de Henrique do Vale)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

ANTES QUE SEJA TARDE




Antes que seja tarde

Antes que seja tarde
e os lírios feneçam com a invernia
antes que as noites desonrem o dia
e os rios sequem no estio
antes que o mar se inunde em vazio
e antes que seja tarde,

antes que seja tarde
e a maré preia se encarcere
antes que o sol se desterre
e os azuis se tornem breu
antes que se ausente o céu
e antes que seja tarde,

antes que seja tarde
e a madrugada embacie a fantasia
antes que a vida seja heresia
e o destino se torne acusador
antes que a vida feneça em dor
e antes que seja tarde,

antes que seja tarde
eu vou amar-te, meu amor
eu vou amar-te, meu amor!

ana paula lavado ©  

domingo, 20 de janeiro de 2013

VESTI-ME DE TI



Vesti-me de Ti!

Como eu gostava de me morrer
na linha infinda de um poema.

De alma nua entrego
no deslizar dos dedos
a fragrância do meu perfume
colhido ao acaso.

E num indisfarçável desejo
concebo-te sem hora marcada.

Fui tua nesta jornada
de impensável sedução.
Nesta escandalosa ânsia
de sentir minha nudez
e vesti-la de ti.

E neste prazer insaciável
de me morrer por te ter,

morro-me
na linha infinda de um poema!

ana paula lavado in "Um Beijo... Sem Nome", Corpos Editora, 2008

(foto do google)

sábado, 19 de janeiro de 2013

ILUSÕES




Ilusões

Repete-me as sílabas
Onde o sol se demora.
Porque as ilusões,
Essas já não me conhecem
E escondem-se disfarçadas
No seu vil egoísmo.

Vivo-me de degredo
Porque não permito à morte
Que me mate por destino.

ana paula lavado ©  

(foto do google)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A VELHA RUA




A velha rua

Há na velha rua mil pedaços
Há segredos desvairados e cansaços
Um velho pedinte que reclama graça
Uma corda pendurada com desgraça.
Há portas velhas com batentes des-tintados
As vizinhas que conjuram maus-olhados
Há o hálito quente do bêbado da taberna
E a puta que levanta a saia e mostra a perna.

Há na velha rua mil razões
Dos que ficaram por não terem mais tostões
Daqueles a quem o mundo é uma janela
Que só vêem o que se passa através dela.
Há os velhos de quem a vida se esqueceu
Os famintos que fazem da noite cor de breu
Os pregões que morreram na calçada
E a vida para quem a vida não vale nada.

Há na velha rua mil fadigas
Que escondem a amargura das intrigas
Há o sorriso amargo do velho desdentado
O rosto amarelo que outrora foi rosado.
Há a noite que se prolonga todo o dia
A penumbra que dantes era alegria
O cheiro a podre que se desfaz em desgraça
E o desprezo de quem já não lhe acha graça.

ana paula lavado © 

(foto do google) 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

MARINHEIRO




Marinheiro

Espero por ti, marinheiro
Entre as madrugadas solitárias
Que não vejo
Senão o calor que ficou da última vez.

Quando voltas, marinheiro?
Quando incerto teu paradeiro
Revolto-me em águas atormentadas.

Porque sei, marinheiro
Que no cais onde param os navios
Tu revolves o mar num e noutro fervor.

Mas quando chegares, marinheiro
É no meu cais que te encontras, amor.

ana paula lavado © 

 (foto do google)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

NÃO DIGAS QUE VAIS, MEU AMOR



Não digas que vais, meu amor

Ouve o grito longínquo dos astros
o aroma a trigo das sementeiras
o lamento do rio quando se morre
o perfume da flor nas amendoeiras.

Ouve a água no sibilar dos versos
A ânsia nocturna do entardecer
O clamor incendiado do deserto
O canto do rouxinol no alvorecer.

Não digas que vais,
meu amor,
que eu não poderei ouvir jamais.

ana paula lavado © 

(foto da internet)