sexta-feira, 14 de setembro de 2012

MEDO


Medo

Não tenho medo de nada
nem do sarcasmo das letras
ditas por bocas depauperadas
de lisura.

Ninguém me roubará as coisas
que a vida já roubou
nem o inevitável das outras coisas.

Chega de fechar os olhos ao mundo
e morrer sem lei em lugar algum.

Agora já não é possível ter medo
porque venho sempre sem me morrer!

ana paula lavado ©


(foto retirada da internet)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

PASSAGEM



Passagem

Há passagens no mundo
que não escolhi.
Faço de conta
que não é nada comigo
mas suspendo-me devagarinho
estupefacta.
Não é a arte abstracta
que me espanta.
Antes espantasse.
Mas o viril escárnio,
de quem padece sem cura,
doente de impiedade.
Oh crueldade
que encarnas o princípio do fim.
Do fim do mundo
se é que é mundo
esta passagem antes do fim.

ana paula lavado ©


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

SEI QUE TE TEREI


Sei que te terei

Sei que te terei.

Os dias iluminam-se à tua forma
sublimando os pensamentos
à distância do nano fragmento
que nos separa.
És tu quem me aperta as mãos
e me leva sem destino calculado
nos percursos mais incólumes dos sentidos.

Sei que te terei,

quando arderem todas as árvores que me alimentam
e todas as montanhas se despojarem do seu perfume,

sei que te terei.

E no meu ventre vazio guardo-te em segredo
e escuso-me no degredo
para te amar silenciosamente.
Não, não escondo que te amo
Mas gosto de o fazer silente.

Sei que te terei,

depois de cumprir todos os passos da predestinação
elevando os silêncios das nossas conversas
fragmentadas pelas intromissões da dolência,
imiscuída sem anuência.

Sei que te terei,

na vontade gasta do teu afastamento
calculado prematuramente
como uma gestação inacabada.
Não, não me falta nada
Apenas a luz imprópria dos dias em que não sinto
a voz magra da tua quietude
me inquieta.
Substituo-te nos versos
escolhidos ao acaso nas linhas brancas
de um qualquer papel amarelecido,
pálido de solidão.

Sei que te terei.

E quando nos sentarmos lado a lado,
de mãos dadas como antigamente,
os silêncios entrelaçar-se-ão
porque já não necessitamos de palavras.
Não porque as tenhamos dito todas,
mas porque nos temos silenciosamente.

Sei que te terei.

(Ao primeiro homem que amei. Meu Avô)

ana paula lavado ©

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

JASMINS



Jasmins

Penso como as flores murcham
sem alimento.
Talvez um dia
as possa alimentar de seiva
e elas permaneçam perenes.
Cansa-me a efemeridade
das coisas alheias
que não necessitam de acolhimento
permanecendo inertes à vontade.
E rasgo as veias
como se da minha loucura nascessem jasmins
intransmutáveis ao pensamento.
Tal como a névoa que se esfuma
enegrecem-se as estrelas
perecendo mais distantes que nunca.
Na noite escura
morrem as letras
nas palavras escritas sem paixão.

ana paula lavado ©


 (foto retirada da internet)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

ESSE MAR ÉS TU!




Esse mar és tu!

Esse mar que divaga silencioso
Que marulha vago em noites de calmaria
Que ousa quem o afronta orgulhoso
Que amorna toda a dor de agonia,

Esse mar que revira trevas num repente
Que mordaz destrói quem se atreve
Que engole qualquer injúria argutamente
Que desvia qualquer rota que alguém teve,

Esse mar tão sublime e tão feroz
Que me ocupa a alma de indecência
Que me fustiga e me observa, atroz
E me ama para além da inclemência.


ana paula lavado ©


 (foto retirada da internet)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

NAS MINHAS NOITES

Nas minhas noites


Nas minhas noites
guardo vidros escuros
sem luz.


A Terra afunda-se em bruma
e a bruma afunda-se em mim.


Demora-se a madrugada
dos homens
e das coisas.


E então tu surges
plácido e pleno
como o sol da manhã.


E os ruídos da noite
Calam-se silenciosamente!


ana paula lavado ©

(foto retirada da internet)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

PÉTALAS DE PERFUME

 


Pétalas de perfume

Regresso sem lugar
sem poiso certo na mente
vagueando sem pressa de viver.

Chegando, perco o destino
sem metas nas estepes
de histórias por contar.

Só nos teus braços há momentos
tangendo-me nas tuas mãos lívidas
fecundando-me de ti.
Adormeço devagar
nesse espaço vagante
como quem chama por mim.

E quando as pétalas secarem
embebê-las-ei do teu perfume
e mais um dia morrerei dentro de ti!


ana paula lavado ©

(foto retirada da internet? 


quarta-feira, 25 de julho de 2012

O SONHO




O Sonho

O que há para lá do sonho
que os deuses não descortinam
nem a cortina que ouso descortinar
sonha que o sonho nasce nos rios
e que os rios morrem no mar.

E do outro lado da margem
que ousa descortinar-me os medos
lanço-me nas águas fecundas
como se delas fossem acervos
os anseios dum beijo reservado.
Morro-me de nada
como se nada me morresse
a vontade fecunda
ou outra vontade que eu tivesse
no desejo que me profunda.

E como quem mata o degredo
inundo-me neste segredo
que não desvelo, não descortino
nem ouso descortinar
que o sonho nasce nos rios
e que os rios morrem no mar.

ana paula lavado ©

( foto retirada da internet)

terça-feira, 24 de julho de 2012

INSTANTE




Instante

No instante em que me parto
e adormeço nos passos do chão,
sei que a verdade me perscruta
no silêncio da minha mão.
Como os laços, como as tranças
que em menina nunca usei,
pouso os cabelos na alma
do sossego com que te ousei.

E no mesmo instante me parto
na madrugada em que te frequento.
Pousa-me a sombra da tua calma
em cada instante, a cada momento.

ana paula lavado ©

 (foto retirada da internet)

sábado, 7 de julho de 2012

GOTA DE ORVALHO



Gota de Orvalho

Nasci do orvalho,
gota de água infecunda
transparente
insulada e só.

E só, me atrevo,
sem receitas de circunstância,
a masturbar as letras
fecundando-me em poema.

ana paula lavado ©



(foto retirada da internet)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

NAVEGAR-TE


Navegar-te

Navegar-te
é talvez o meu maior segredo.

Sublime inalação
que só o amor entende!

ana paula lavado ©

(foto retirada da internet)


quinta-feira, 28 de junho de 2012

ÁGUAS




Águas

Já esqueci a fome de todos os dias.
E em refinada loucura recomponho a lucidez
anarquizando o tempo que me subsiste.

Impossível dizer a que instante concebo as águas
ocultas na atmosfera estéril dum sonambulismo real.
Vão-se as horas de todos os tempos
marginalmente complexas e desajustadas
viajantes inúteis da eternidade alheia.

Recebo-te assim, em todas as horas
inclinando o véu à temperatura das águas
- porque as águas se querem límpidas e claras-
e mergulho na seiva que as ondas têm ao entardecer.

ana paula lavado ©

(foto retirada da internet)

terça-feira, 26 de junho de 2012

O NOSSO EU!




«Há uma questão incontornável - Em nós, mandamos nós.»

Atingir esse estádio, não é fácil. Aprendemos à nascença a sermos amparados e comandados, enquanto a absorção do que nos rodeia se vai tornando clara e realista. Crescer é quase um acto heróico, uma batalha em que temos que comandar o instinto, a vontade e os ensinamentos adquiridos. A vitória é alcançada no momento em que a nossa personalidade se vinca e podemos passar a ser donos do nosso Eu.

Será que nesse momento mandamos totalmente em nós?

O Homem é um animal de matilha. Não consegue viver isolado do clã que vai criando ao longo da vida. E mesmo sendo o chefe da matilha, as suas decisões e vontades estão sujeitas aos outros membros. Mesmo expressando a sua vontade, ela terá de ser maleável em função da vontade dos outros membros do grupo. E sendo dono de si, terá de ceder na sua vontade, para que haja consenso entre todas as partes.

Erradamente, cedemos em demasia. Alheamo-nos da nossa vontade e da nossa independência, em função do clã, que pensamos ser o ideal. Faz-se tudo em prol da matilha, para que ela cresça saudável e perfeita. A vida vai sendo delineada de acordo com as necessidades dos membros mais novos, e o objectivo é criar um mundo perfeito, à dimensão do nosso sonho. E sem nos apercebermos, vamos abdicando de nós em função da felicidade dos outros.

Estupidamente, deixamos que isso aconteça, pensando sempre no bem-estar da matilha, na sua protecção e na sua defesa. E quando o mundo se desmorona, urge juntar todos os pedaços, que mais não são, do que um ponto de partida para a sobrevivência.

Conseguir ter lucidez suficiente para nos apercebermos atempadamente, é quase uma segunda vitória. Conseguir inverter os factos é atingir a plenitude de si, e então passar a ser na realidade dono do seu EU.

A vida é uma sucessão de batalhas que todos os dias temos que enfrentar e lutar para vencer. Muitas se perdem, talvez por não se agir da forma correcta e no momento certo. Mas outras há, que se vencem com actos de heroicidade, o que faz com que metade do nosso Eu se sinta verdadeiramente orgulhoso.

Acomodamo-nos, mas nunca nos adaptamos. É impossível conviver com a hipocrisia, os falsos pudores, os falsos moralistas ou a falsas amizades. Tudo se põe à venda e tudo pode ser comprado ao maior ou menor preço. É inexequível conceber a mesquinhez e desdém com que se fala dos outros, sem a preocupação primeira de se olhar para dentro de si.

É possível que somente a loucura nos mantenha mentalmente sãos. A loucura de nos deixar levar pelo impulso, e não pelas «leis» da sociedade.

A única lei que vigorará terá de ser a da nossa consciência. E apenas assim se conquistará o ponto mais almejado do ser humano:

O NOSSO EU!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

OS PÁSSAROS DO SUL



Os Pássaros do Sul

Nas folhas densas do tempo
tangendo os vértices da loucura
naufraguei enlameadamente.

As palavras, quase lágrimas,
imersas na palidez da memória,
morriam nas árvores de ramos descalços,
tão nuas como o tempo.

Procurei-te para lá das nascentes
onde os versos aclaram na limpidez das águas
como se fosse a vez primeira.

E na vez primeira,
desnudei a bruma
no voo dos pássaros que revinham do sul.

ana paula lavado ©




(foto retirada da internet)


quarta-feira, 13 de junho de 2012

FALA-ME DE TI




Fala-me de ti 



Fala-me do silêncio. 

Daquele que silenciámos na boca 

na secreta obscuridade das palavras. 



Fala-me das nuvens. 

Daquelas que cingem os sonhos 

que lentamente cinzelamos. 



Fala-me das montanhas. 

Daquelas que crescem nos orvalhos 

que alimentam a nossa sede. 



Fala-me do mar. 

Daquele que imerge dentro do corpo 

e desagua na ânsia da existência. 



Fala-me de ti. 

Daquele que me surpreende a quietude 

e desabotoa a minha nudez. 





ana paula lavado ©


(foto retirada da internet)

terça-feira, 12 de junho de 2012

SUSPEITA DE MIM


( "O Pensador" de Rodin )



Suspeita de mim 

porque não penso 

porque não digo 

porque não tormento. 



Porque não sei 

e avidamente procuro 

e quanto mais procuro 

menos sei. 



Ó terra infecunda 

inóspita e hominizada 

que me esventras 

que me ignoras 

que me arrogas 

de cegueira, 



toma meu corpo 

toma meu espírito 

por parceira. 



E que eu morra 

ínfima aprendiza 

nesta ignorância. 



Antes a insciência 

que a arrogância. 



ana paula lavado © 







quarta-feira, 6 de junho de 2012

ENQUANTO TE ESPERO



Tudo é triste 

Enquanto te espero. 



À luz da noite 

Recordo um verso esquecido 

Que me traga à boca 

O sabor da tua sede. 



E quando a Lua já não tem voz 

Imerjo o corpo no oceano 

Desaguando ninficamente 

No calor dos teus braços. 



ana paula lavado ©