quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O MEU POEMA SEM NOME



O meu Poema sem Nome

De que nos serve, na quarta à noite,
naquele bar de artistas,
confundirmos a personagem
e tomarmos para nós
o papel principal!
Nem a solidão nos abandona sem deixar recado,
nem as palavras que são ditas
com coragem ou com despudor,
nos alheiam da nossa memória.
Os olhares vagueiam,
os rostos transfiguram-se,
distraídos do cansaço
ou submersos num copo de agonia!
Esquecem-se as vontades e as dores,
enquanto a noite
se prolonga e desajusta da hora marcada.
O silêncio absorve-nos, arrebata-nos
e alheia-nos da verdade.
Só a solidão se senta a nosso lado e nos provoca.
Sorri, maldosa e incomplacente,
e vai-nos enchendo
o copo vazio com outra dor.
Mas a alma permanece intacta.
Resiste estoicamente,
trazendo dentro de si mais uma poesia sem nome,
dolorosa ou sem pudor,
que vai enchendo de ouro
um qualquer papel amarrotado
onde se escreve
um qualquer poema sem nome!

ana paula lavado in UM BEIJO...SEM NOME, Corpos Editora, 2008

(aguarela de Henrique do Vale)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

ANTES QUE SEJA TARDE




Antes que seja tarde

Antes que seja tarde
e os lírios feneçam com a invernia
antes que as noites desonrem o dia
e os rios sequem no estio
antes que o mar se inunde em vazio
e antes que seja tarde,

antes que seja tarde
e a maré preia se encarcere
antes que o sol se desterre
e os azuis se tornem breu
antes que se ausente o céu
e antes que seja tarde,

antes que seja tarde
e a madrugada embacie a fantasia
antes que a vida seja heresia
e o destino se torne acusador
antes que a vida feneça em dor
e antes que seja tarde,

antes que seja tarde
eu vou amar-te, meu amor
eu vou amar-te, meu amor!

ana paula lavado ©  

domingo, 20 de janeiro de 2013

VESTI-ME DE TI



Vesti-me de Ti!

Como eu gostava de me morrer
na linha infinda de um poema.

De alma nua entrego
no deslizar dos dedos
a fragrância do meu perfume
colhido ao acaso.

E num indisfarçável desejo
concebo-te sem hora marcada.

Fui tua nesta jornada
de impensável sedução.
Nesta escandalosa ânsia
de sentir minha nudez
e vesti-la de ti.

E neste prazer insaciável
de me morrer por te ter,

morro-me
na linha infinda de um poema!

ana paula lavado in "Um Beijo... Sem Nome", Corpos Editora, 2008

(foto do google)

sábado, 19 de janeiro de 2013

ILUSÕES




Ilusões

Repete-me as sílabas
Onde o sol se demora.
Porque as ilusões,
Essas já não me conhecem
E escondem-se disfarçadas
No seu vil egoísmo.

Vivo-me de degredo
Porque não permito à morte
Que me mate por destino.

ana paula lavado ©  

(foto do google)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A VELHA RUA




A velha rua

Há na velha rua mil pedaços
Há segredos desvairados e cansaços
Um velho pedinte que reclama graça
Uma corda pendurada com desgraça.
Há portas velhas com batentes des-tintados
As vizinhas que conjuram maus-olhados
Há o hálito quente do bêbado da taberna
E a puta que levanta a saia e mostra a perna.

Há na velha rua mil razões
Dos que ficaram por não terem mais tostões
Daqueles a quem o mundo é uma janela
Que só vêem o que se passa através dela.
Há os velhos de quem a vida se esqueceu
Os famintos que fazem da noite cor de breu
Os pregões que morreram na calçada
E a vida para quem a vida não vale nada.

Há na velha rua mil fadigas
Que escondem a amargura das intrigas
Há o sorriso amargo do velho desdentado
O rosto amarelo que outrora foi rosado.
Há a noite que se prolonga todo o dia
A penumbra que dantes era alegria
O cheiro a podre que se desfaz em desgraça
E o desprezo de quem já não lhe acha graça.

ana paula lavado © 

(foto do google) 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

MARINHEIRO




Marinheiro

Espero por ti, marinheiro
Entre as madrugadas solitárias
Que não vejo
Senão o calor que ficou da última vez.

Quando voltas, marinheiro?
Quando incerto teu paradeiro
Revolto-me em águas atormentadas.

Porque sei, marinheiro
Que no cais onde param os navios
Tu revolves o mar num e noutro fervor.

Mas quando chegares, marinheiro
É no meu cais que te encontras, amor.

ana paula lavado © 

 (foto do google)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

NÃO DIGAS QUE VAIS, MEU AMOR



Não digas que vais, meu amor

Ouve o grito longínquo dos astros
o aroma a trigo das sementeiras
o lamento do rio quando se morre
o perfume da flor nas amendoeiras.

Ouve a água no sibilar dos versos
A ânsia nocturna do entardecer
O clamor incendiado do deserto
O canto do rouxinol no alvorecer.

Não digas que vais,
meu amor,
que eu não poderei ouvir jamais.

ana paula lavado © 

(foto da internet) 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

É FASCINANTE O AMOR




É fascinante o amor

É fascinante o amor
E vós não sabeis como achá-lo.

Há poucos, dizem os descrentes
Há nenhuns, dizem os cépticos.

Há os mornos
Há os frios
Os impossíveis
E os tardios
Há os queixosos
Os inocentes
Há os teimosos
E os maldizentes
Há os receosos
Os dissimulados
Os andrajosos
E os profanados
Há os que olham
Os que não querem ver
Há os que perecem
E os que nunca chegam a ser.

E há aquele, que quem conhece,
Vive por ele até morrer.

ana paula lavado © 

(foto da internet)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

É ASSIM, ESTE AMOR




É assim, este amor

É assim, este amor que te entrego
sereno e cálido,
porque se pode amar de muitas feições
mas eu só conheço esta maneira.

Há maneiras mais quentes, eu sei
outras há que tombam fronteiras
e aqueloutras que incitam tempestades.

Mas a mais forte que derruba as demais
é saber-te como fogo no peito
e sentir sem dizer o que sinto
porque amo de outra maneira.

ana paula lavado © 

(foto da internet) 


DEVAGAR



Devagar

Amo-te devagar
Como devagar correm os dias
Que não têm pressa.

Não tenho pressa de te amar
Não tenho urgência no amor
Tenho apenas vontade de te amar
No silêncio perene do tempo
Devagar!

ana paula lavado © 

 (foto da internet)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

NÃO SOMOS!




Não somos!

Somos o vento que canta
A árvore mais alta da serra
Somos a gente que fala
Os versos da nossa terra.
Somos os silvos da noite
A luz que vem de madrugada
O silêncio na voz dos que calam
Somos os errantes da estrada.

Somos tudo, somos nada
Somos a inconstância da vida
Somos os Invernos que matam
Somos a Primavera florida.

Somos reis do des-reinado
Governantes do deserto
Somos povo habituado
Ao castigo mais perverso.
Somos veste que nos cobre
Sem ganância nem grandeza
A injúria de quem comanda
A grata sorte da esperteza.
Somos aqueles que caiem
Sem eira nem beira no desatino
Somos pasto que nutre a seiva
Dos que marcam o destino.
Somos a voz gasta da tortura
A gaguez que move sem graça
Somos o lixo onde cospem
Os ditadores da desgraça.

Somos tudo, somos nada
Somos peças da disputa
Somos trapos que nos rasgam
Mas não somos Filhos-da-Puta!

ana paula lavado © 

(foto da internet) 

Morning

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

JÁ PASSAVA DA NOITE



Já passava da noite

Já passava da noite
quando junto ao cais da despedida
o silêncio intransmissível das sombras
esperava apenas o regresso.

Já passava da noite
quando junto às areias do oceano
apenas havia o pavio dos barcos
que caminhavam para a faina.

Já passava da noite
quando as sereias despertaram
e me trouxeram o sossego
do sabor quente do teu corpo.

ana paula lavado © 

(foto da internet)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

SONHO




Sonho

A parte inefável do ser
A que traduz o indizível
Soletra-me na ponta dos dedos
O silêncio da aragem miúda.

Tu não sabias, ninguém sabia,
Que neste sorriso languescente
Escondo o verbo esquecer.

Num caminho sinuoso, entorpecente,
Ninguém sabia, nem tu sabias,
Que nos instantes que tenho
Sonho-te, sem te perder.

ana paula lavado © 

 (foto da internet)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

CATIVEIRO



Cativeiro

Fui cativeira do desnorte
talvez por penúria da sorte
talvez por tresloucada sina.
Ao longo do tempo filosofei
numa escusada busca de verdade
e nem por força da vontade
vi loucura simples e cristalina.
Mísera sorte que contamina
estranha condição tão entranhada
de combater tão desigualada
nas partes desiguais da igualdade.
Haja liberdade para lá do ensejo
onde este infortúnio cativeiro
será proscrito pela verdade.

ana paula lavado © 

(foto da internet) 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

ANTES QUE SEJA MADRUGADA




Antes que seja madrugada

Antes que seja madrugada
Encosta os meus sonhos ao peito
Namora o meu rosto no leito
E despe o meu sono de alvorada.

Antes que seja o alvor
Soletra o meu corpo por anáforas
Desnuda a minha pele por metáforas
E ama-me como ama o Amor.

ana paula lavado © 

(foto da internet)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

ÉS TU


És tu

És tu. Sim, és tu
Que no límpido universo me renasce
Como a aurora se recupera em boreais
Ensaiando os abrigos da natureza.

Tu, palavra que me veste por dentro
Onde os areais se transladam
No sal da minha pele languescente
Tu.

Serei a metáfora da mais singela das sereias
Que o mar esconde nos alhais de espuma
Poema contido na transparência das sílabas
Seduzindo a luz que invade as pupilas
Tu.

ana paula lavado ©  

 (foto da internet)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

RUAS


Ruas

Por trás das ruas
Silenciosas de rumores
Mil poemas se empalidecem
Na obscuridade das sombras.
Perderam-se as palavras
Nas portas sem número
Alinhadas escrupulosamente
Por ordem nominal.
Ninguém por certo adivinha
Que numa travessa sem nome
Havia um caminho para o mar.
E no silêncio agreste que não vinha
Fui eu com as palavras nas mãos
Escrever um poema para te dar!

ana paula lavado ©  

 (foto da internet)