terça-feira, 30 de julho de 2019
Vivo neste país por engano
Vivo neste país por engano
Vivo neste país por engano.
Deito o meu corpo exausto sobre lâminas aguçadas
esperando que o tempo o amadureça lentamente.
Embriago-me, para que o esquecimento
me dê a sonolência dos corpos sem destino
e as veias não me provoquem a morte.
A noite é imensa e escreve epitáfios nos vidros escuros
tentando roubar-me a solidão.
Os traços de tinta onde ainda escrevo
nestas noites lentíssimas de silêncio
espalham-se no nevoeiro da manhã
em altíssimas paredes brancas
que me murmuram o protagonista dos sonhos
que não ouso ter.
Ao longe, ouço o lamento do mar
atormentado pelas luzes da cidade
e pelas cinzas da combustão dos corpos.
Já não vou deixar gravada, esta voz esparsa
na secreta noite dos oceanos.
ana paula lavado ©
sábado, 9 de fevereiro de 2019
Uma palavra
Uma palavra
Penso
na quantidade de coisas que me ocupam o pensamento,
que
deviam ser de uma transparência quase vitral,
e
não passam de bocados de alma amachucada.
Quando
ontem falei contigo,
e
a conversa imergiu em horas desmedidas,
sonhei
com as águas profundas do oceano
e com os
amores que deixei ao longo do mar.
É
inesgotável, a sede deste copo vazio
que
bebo à luz infecunda da madrugada.
Queria
que fosses uma estrofe
para
encher com as palavras que me enchem a alma.
Um
verso. Só um verso já seria o suficiente.
Ou
uma palavra.
ana
paula lavado ©
As ruas da cidade
As ruas da cidade
As
ruas da cidade são inundadas de luzes indiscretas
e vozes esparsas que falam com as cassiopeias.
A noite é imensa e as luzes têm a solidão dos velhos.
Os passos são cadenciados ao ritmo de um poema
escrito por amor, que acabou por não ter nenhum destino.
Um bêbado encosta-se ao candeeiro da esquina
e um carro pára perto da prostituta que mastiga chiclete
e puxa a meia calça já rota de tantas noites.
Uma e outra janela mostram a insónia de quem já não dorme
e um faminto revolve os sacos deixados com sobras de nada.
Já não há corpos diáfanos nem primaveras férteis.
e vozes esparsas que falam com as cassiopeias.
A noite é imensa e as luzes têm a solidão dos velhos.
Os passos são cadenciados ao ritmo de um poema
escrito por amor, que acabou por não ter nenhum destino.
Um bêbado encosta-se ao candeeiro da esquina
e um carro pára perto da prostituta que mastiga chiclete
e puxa a meia calça já rota de tantas noites.
Uma e outra janela mostram a insónia de quem já não dorme
e um faminto revolve os sacos deixados com sobras de nada.
Já não há corpos diáfanos nem primaveras férteis.
ana
paula lavado ©
Vazio
Vazio
percorro
as ruas penumbrosas da cidade
e
deixo-me entranhar pelo vazio
que
invade a noite
os
objectos, dissimulados pelo silêncio,
são
como pássaros hibernados
ou
velhos arrastando o desgosto
a
madrugada desce sôfrega sobre o peito
regresso
aos versos e ao desassossego das memórias
às
metáforas pérfidas e à agonia do cansaço
e
enumero as palavras abandonadas à morte
ana
paula lavado ©
Não devo pensar
Não devo pensar
Penso
no dia em que deixei a
puberdade.
Poderia
ter sido bela, se tivesse sido, verdadeiramente,
puberdade.
Poderia
ter sido feliz, se não tivesse sido trocada
pelo
dever que só se deve ter depois da
puberdade.
Agora
os dias são longos. Desesperantes.
Não
devo pensar.
Pensar
é tão perigoso como morrer.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
Tento não fugir à racionalidade das coisas
Tento não fugir à
racionalidade das coisas
Tento
não fugir à racionalidade das coisas
colocando
os objectos, milimetricamente ordenados,
no
local certo.
O
corpo arde, inflamado por esta compostura,
que
se torna agoniante.
O
lugar dos objectos não tem racionalidade.
O
lugar dos objectos tem a mestria do Universo
e
a incompreensão do nosso pensamento.
Coloco
uma cadeira no meio do jardim
esperando
que nasçam flores em seu redor.
Sento-me,
pego num livro e folheio as páginas amarelecidas
em
busca de algum entendimento.
Nem
nasceram flores em volta da cadeira
nem
entendo a racionalidade das coisas.
ana
paula lavado ©
segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
domingo, 10 de junho de 2018
Irei sozinha o resto do caminho
Irei
sozinha o resto do caminho
Irei sozinha o resto do
caminho.
Cheguei tarde, quando quis
caminhar contigo
e os teus passos já não eram
iguais aos meus.
Um dia fui bater à tua
porta
mas disseram-me que a havias
abandonado
e partido para onde a
existência é etérea
e não precisa de mais
passos.
Às vezes vejo-te.
Envelheceste!
Os teus cabelos brancos
estão mais brancos
mas o teu olhar continua com
a beleza dos campos semeados
quando despontam as
primeiras flores.
Outras vezes escrevo-te.
Escrevo-te coisas sem nexo
incapazes de simplicidade ou
beleza.
Mas tu sabes que gosto das
coisas simples.
Do mar e dos crepúsculos
da quietude campestre
e dos oásis nocturnos.
Tenho que me concentrar mais
nas palavras
esperar que o seu
significado seja justo
e não me deixar levar por metáforas
desajustadas
que tornam dúbia a sua
compreensão.
Sabes! Hoje não vou usar
metáforas.
Vim somente para te dizer
que já não preciso de passos,
para caminhar contigo!
ana paula lavado ©
Ninguém
Ninguém
Estavas lá, à minha espera,
sentado num banco de jardim
igual aos que havia
antigamente.
Folheavas um jornal,
daqueles que trazem as
notícias de ontem,
com fotografias de gente
importante,
de assassinos e burlões.
A tua atenção era discreta
e o teu olhar vagaroso.
Imaginei-te poeta,
pela serenidade dos gestos,
ou filósofo, pela maneira
como observavas o jardim.
Sentei-me ao longe,
num outro banco, semelhante
ao que havias escolhido,
para te ler os jeitos e as
paixões.
Os pássaros voavam em teu
redor, sem medo,
e as folhas das árvores
dançavam delicadamente
como se lhes tocasses uma
sinfonia.
Podias ser músico,
pela delicadeza das mãos,
ou pintor, pela maneira como
acariciavas o papel.
Folheavas o jornal tão
vagarosamente
como quem
tem a vida por eternidade.
Caminhei
pelos passeios de terra já gasta,
cansados
dos passos de gentes anónimas,
que amam
os pássaros, as árvores e as flores,
e que os
percorrem
à procura
daqueles bancos de jardim iguais aos de antigamente.
Caminhei
pelos passeios de terra já gasta
até ao teu
banco de jardim e,
olhando-te
nos olhos, perguntei “Quem és?”.
Sorriste,
acariciaste-me a face e,
sem que o mistério
abandonasse o teu olhar,
disseste “Sou
ninguém!”
terça-feira, 5 de junho de 2018
Vem por este caminho onde a estrada é mais longa
Vem
por este caminho onde a estrada é mais longa
Vem por este caminho onde a
estrada é mais longa.
Teremos tempo de falar de
todas as coisas que nos ocupam
o pensamento, e rir das
ironias que a vida nos reserva.
Vai longe o tempo em que
queríamos tudo. Até os sonhos.
Agora, é o prazer das coisas
vulgares que nos seduz
e nos sustenta a alegria de
caminhar com destino incerto.
Vem por este caminho onde a
estrada é mais longa.
Contar-te-ei estórias de
amores e desamores
e de paixões sem estória
para contar.
E falar-te-ei do amor. Do
amor que nos move,
que nos inflama, que nos dá
vida e nos faz morrer.
Vem por este caminho onde a
estrada é mais longa.
Vem por este caminho onde o
destino é viver.
ana paula lavado ©
Dentro do corpo vive o mistério das coisas
Dentro
do corpo vive o mistério das coisas
Dentro do corpo vive o
mistério das coisas
o absoluto segredo da
incipiência
do nascimento da alma
e da morte visceral da
existência terrena.
Somos meros passageiros
prisioneiros e carrascos do
universo
a transumância entre
encarnações.
ana paula lavado ©
domingo, 7 de janeiro de 2018
Amei, ah como amei
Amei, ah como amei
Amei,
ah como amei
os
campos em pousio antes das sementeiras
e
a sedenta vontade das primeiras flores
antes
que o tempo as deixasse despertar.
E
nos poentes amei o mar
O
barulho incessante do sal a germinar no corpo
e
o cais onde os navios repousam dormentes.
Amei
o silêncio das madrugadas inquietas
as
cidades descobertas na vertigem da noite
e
a melancolia viandante das cinzas das manhãs.
Amei,
ah como amei
as
memórias da virgindade da adolescência
e
o insano despudor com que me atrevi a amar.
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
PASSO NAS ESQUINAS DAS RUAS
Passo nas
esquinas das ruas
Passo
nas esquinas das ruas
e
penso em tudo o que deveria ter feito.
As
sombras, deixadas pelos corpos que as atravessam
simulam
o meu silêncio como rio atravessado por águas vãs.
Poderia
ter deixado os navios continuarem a atracar à minha porta
ou
as pérolas a crescer nas conchas que davam à praia.
Poderia
ter esperado que o vento dissipasse a névoa
e
que os pássaros continuassem a fazer ninho no meu beiral.
Nada
é tão fétido como a vontade inacabada
que
nos torna prisioneiros acorrentados de memórias.
Resta-me
o fogo que me acompanha nos dias frios
e
os livros que me aquecem a solidão!
ana
paula lavado ©
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
JÁ NADA É COMO ERA DANTES
Já nada é como era dantes
Já nada é como era dantes
Nem
os presságios conseguem ter realidade
Sento-me
numa cadeira no recanto mais escuro da casa
para
que a luz não perturbe o meu pensamento
O
Verão chegou ao fim. Com ele
acabaram
as paixões que só duram nos dias quentes
e
as insónias tomaram o lugar dos deuses
Acabaram
as romarias, o fogo de artifício à meia-noite
e
tudo volta à verdade moribunda dos dias cinzentos
Pensei
libertar as emoções para que elas voltassem a jorrar
como
um esperma quando se satisfaz num corpo sedento
ana
paula lavado ©
domingo, 16 de julho de 2017
SE SOUBESSES
Se
soubesses
Se soubesses, meu amor, como guardo o rio
e os barcos que navegavam junto ao mar,
se soubesses quantas aves voaram em desvario
e quantos versos deixei por acabar,
se soubesses quantos oceanos me navegaram
e em quantas marés me resguardei,
se soubesses, meu amor, se soubesses,
se soubesses como te amei.
ana paula lavado ©
Se soubesses, meu amor, como guardo o rio
e os barcos que navegavam junto ao mar,
se soubesses quantas aves voaram em desvario
e quantos versos deixei por acabar,
se soubesses quantos oceanos me navegaram
e em quantas marés me resguardei,
se soubesses, meu amor, se soubesses,
se soubesses como te amei.
ana paula lavado ©
domingo, 9 de julho de 2017
NÃO TE DIGO ADEUS, MEU AMOR
Não te digo adeus, meu
amor
Não
te digo adeus, meu amor
antes
que as folhas de Setembro inundem os caminhos.
E
depois espero a Primavera
as
aves e os ninhos
Não
te digo adeus, meu amor
antes
que a morte me dê outros destinos.
ana
paula lavado ©
terça-feira, 27 de junho de 2017
O LUGAR ONDE HAVIA ÁRVORES
O lugar onde havia
árvores
Regressas
subitamente ao lugar onde terminaram as árvores.
Já
não falo nem digo coisas que seriam um completo disparate
mas
que são coisas que me afligem e me condenam
à
inquietude do meu pensamento. Refugio-me nos livros
e
nas coisas banais que me ocupam o tempo
para
que não se dissipem os sorrisos e as palavras
que
preencheram o lugar onde havia árvores.
Tudo
é possível quando escrevo um poema. As letras ocupam
os
espaços que ficaram vazios e vão deixando um misto
de
pureza e quietude, que me lembra a quietude dos teus passos.
O
resto do tempo não passa de um lugar vazio
sem
alma e sem cor, em que se vai imaginando
mais
um poema para que não se acabem as árvores.
Imagino
o tamanho da solidão quando acabarem as árvores.
ana
paula lavado ©
domingo, 11 de junho de 2017
JUNTO À PEDRARIA DA CALÇADA
Junto à pedraria da
calçada
Junto
à pedraria da calçada,
cinza
agreste de granito velho,
um
fio de geada enfrenta o silêncio
diluído
na bruma.
A
cidade,
lentamente
vestida de negro,
acorda
os frenéticos do sexo,
ávidos
de orgasmos.
E
o cheiro dos corpos suados,
invade
a noite e as luzes ferrugentas da rua.
Num
suspiro, a noite morre
e
a pedraria da calçada,
cinza
agreste de granito velho,
dilui-se
num fio de geada.
domingo, 4 de junho de 2017
JÁ NÃO REGRESSO AOS DIAS EM QUE ME AMAVAS!
Já não regresso aos dias
em que me amavas!
É
inútil a terra onde desbravo as memórias.
Do
teu incógnito sorriso, tenho o amargo dos dias
em
que o teu incógnito sorriso não me sorri.
E
da terra lenta que não frutifica as flores,
a
saliva amarga das palavras que não pronuncio.
É
inútil o pensamento que me encarcera.
Das
tuas diminutas palavras, tenho a inquietação dos dias
em
que as tuas diminutas palavras não me falam.
E
da terra estéril que não produz a seiva
o
fel dos dias que não produzem memórias.
Já
não regresso aos dias em que me amavas!
sexta-feira, 26 de maio de 2017
O ESPELHO
O espelho
Guardo-te
na imagem indiscreta do espelho
onde
o reflexo é um oceano.
Alga
pura, maré serena e as águas
inquietas
fantasias de todos os segredos.
E
não penso. Retorno à imagem esbatida pelo tempo
e
sinto os contornos do teu rosto
como
névoa em maré preia.
E
não penso. Não há nada para pensar.
Apenas
os traços por detrás de uma ilusão impossível
aquieta
o mistério das coisas.
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