segunda-feira, 12 de março de 2012
TU
Desnudaria minha alma em pecados
despiria meu corpo de preconceito.
Trocaria minha vontade por desejos
meus silêncios pelos teus beijos
meu pudor pelo teu leito!
ana paula lavado in "Vozes do Vento"
sexta-feira, 9 de março de 2012
NINFA DOS MARES
Ninfa dos mares e das marés
Deusa dos arcanos da Lua
Mareou em terra
E em carne foi amada
Despiu-se das águas
E por amor fez-se sua!
ana paula lavado in "Um Beijo... Sem Nome"
quinta-feira, 8 de março de 2012
MULHER
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
"NÃO"
É dizer “Não”.
O “Não” está sempre bem
Porque não incomoda ninguém
Nem nos obriga a coisa nenhuma.
“Não” quero sair
“Não” quero passear
“Não” quero estar contigo
“Não” quero comer
“Não” te quero comer
“Não” me vou levantar
E vou ficar para aqui sentada
À espera de coisa nenhuma
Porque se vier coisa alguma
Certamente será “Não”!
O “Não” não passa de uma negação
Para negar verbos
Para negar adjectivos
Ou para negar o raio que o parta
Porque não se tem mais nada para negar.
E porque não usá-lo em tantas expressões como
Ou “Não”
“Não” dar o braço a torcer
“Não” obstante
“Não” passar de
“Não” ser de ferro
“Não” tem?
“Não” tem de quê
“Não” ter senão a noite e o dia
“Não” ter tempo para se coçar
E porque “Não” me apetece
“Não” vou escrever mais nada!
ana paula lavado ©
NÃO É MINHA AMBIÇÃO SER POETA!
nem que todas as coisas escritas sejam poesia.
Mas é a minha forma de estar sozinha.
Porque todas as coisas do mundo
giram à minha volta
e não se compadecem da minha solidão.
E a minha solidão é o meu mundo
porque nela sinto todas as coisas do mundo
como elas são.
As montanhas verdes fazem parte do meu mundo
e os rios e os mares e o céu e o vento.
Neles me sinto como sou, como ser vivo
que caminha na sua viagem até encontrar o destino.
Não quero abrigo
nem nada que me proteja do vento ou da chuva
porque preciso de os sentir no corpo
para saber que o meu corpo está vivo e sente todas as coisas.
E todas as coisas que sinto, escrevo-as.
Escrevo as montanhas e os rios e os mares e o vento e a chuva
porque só escrevendo-as sei que são minhas e que eu sou delas
e que faço parte do mundo.
E quando me sento a escrever versos
ou as palavras que se estendem no meu pensamento
sinto que sou poeta.
ana paula lavado ©
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
TEU BEIJO NA MINHA CINTURA
e a respiração
arquejante na palma das minhas mãos.
Por uma água tão pura
que em teu corpo habita, embriagado
do gosto da minha pele
quando beijas a minha cintura!
ana paula lavado ©
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
SILÊNCIO
A água corria algures pelo teu corpo
Ironicamente vestido de nada.
E eu bebia, e eu sugava
A voz incendiada pelo crepúsculo
Dum poema ainda sem palavras.
Tenho sede. E de repente abandono
As palavras de todos os dias
E o meu pulso alcança o teu leito
À procura de porto seguro.
E o meu corpo latejante
Move-se ao ritmo da tua pele.
E eu bebia, e eu sugava
As palavras que não eram ditas
Mas escorriam na água do teu corpo
Ironicamente vestido de nada.
ana paula lavado ©
sábado, 29 de outubro de 2011
Solidão
Diversas sortes percorri antigamente
Olhares dispersos caídos sobre o mar
Onde a morte era a palavra mais certa.
Nomeei meus sonhos de ironia
Num vago sentido de enfermidade
Neste sólido chão que me penetra.
Petrificada e inerte de juventude
Desmaio o olhar secreto sem temor
Num caminho descalço de receios.
E guardo-te nas algas do meu peito
Chamando por ti na minha solidão.
Lentidão
terça-feira, 4 de maio de 2010
QUEM?
Nem sei o que penso, nem porque existo
nem porque todas as coisas existem.
As coisas são o que fazem delas
o que pensam delas
e não o que na realidade elas são.
E tudo pode ser irremediavelmente falso
ou irreparavelmente alterado
sem nunca ser o que é na verdade.
O mundo é apenas um logro
de preceitos e preconceitos
e verdades transformadas.
Feliz do que não é escravo da dúvida
e não questiona as coisas do mundo!
ana paula lavado in "Mentes Perversas"
sábado, 24 de abril de 2010
DEIXA QUE EU ME RIA!
Que eu gargalhe fundo no meu íntimo
Deixa que transvaze esta ironia
Este remoque que me sufoca e asfixia
Esta farsa que se alastra e se apega
Que contagia.
Deixa que eu me ria
Que não goteje a mágoa deste dia
Que não lacrime, que não atormente
Que não chore, simplesmente.
Deixa que eu me ria
Que meu riso, mesmo hipocrisia
Me liberte, me afaste, me alivie
Me isente desse embuste que atrofia
Deste mundo falsário e pecaminoso
Deste perjuro, falso e doloso
Deixa que eu me ria
Deixa que eu me ria!
ana paula lavado in “Mentes Perversas” ©
segunda-feira, 12 de abril de 2010
VENHA!
não me angustia nem intimida
nem me faz ter pressa de chegar.
E no dia em que ela me encontrar
impor-lhe-ei a minha condição.
Não quero flores nem velório
nem lápide com inscrição.
como efémera é a vida
translúcida de contentamento.
Entregai meu pó ao vento
porque só o vento me poderá inventar.
Venha a morte que eu tenho tempo!
ana paula lavado in “Mentes Perversas” ©
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
LOUCURA?
Dizem que a loucura é coisa dos dementes
e nos loucos apenas há insensatez.
Incoerência, discrepância, desconexão
insanidade, destempero, desunião.
Ou um simples desalinho
uma incomplexa contradição...
Talvez!
E porque é tão inerte não ter loucura
tão desumano não ser louco e imoderado,
tão desprovido de razão, tão destemperado,
que a vida sem loucura declarada
faz da razão um fragmento de nada
impõe ao criador uma perversa clausura!
apl in “Mentes Perversas” ©
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
E A LOUCA SOU EU?
O mundo é perfeito!
E a louca sou eu?
E os conceitos
os preconceitos
os babelismos mentais
a prepotência dos fortes
a arrogância dos demais
as ejaculações do poder
e o poder dos anormais?
E a louca sou eu?
E os hipócritas
os dissimulados
os perversos
os disfarçados
os corrompidos
os corruptores
os refractários
e os manipuladores?
E a louca sou eu?
E os vigaristas
os burlões
os pedófilos
e os cabrões
os proxenetas
as prostitutas
os devassos
e as outras putas
os libertinos,
os debochados
os cornudos
e os enganados?
E a louca sou eu?
E os falsários
os perjuros
os fazedores de conjuros
os salteadores
os enganosos
os carrascos
e os leprosos
os assassinos
os ladrões
os verdugos
e os cabrões?
E a louca… sou eu?
ana paula lavado in “Mentes Perversas” ©
domingo, 10 de janeiro de 2010
ASA DE CONDOR OU GARÇA FERIDA
Temo não saber o pensamento
Que ter em relação à vida.
Oráculo esboçado num momento
Asa de condor ou garça ferida.
Tudo o que vem ou vai em vão
Aguarela debotada colorida sem cor
Fogo-fátuo de lava de vulcão
Garça ferida ou asa de condor.
Uma viagem sem término ou destino
Um destino sem ponto de partida
Uma partida feita de desatino
Asa de condor ou garça ferida!
apl in Mentes Perversas
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
TUDO ISSO É AMOR
Nada se compara com o Amor
porque o Amor não se compara a coisa alguma.
Brisa leve, tempestade
mar revolto, suavidade
maresia, furacão
vento norte ou Sião
tudo isso é Amor
tudo isso é Paixão!
O Amor tem destas coisas
coisas essas que não alcanço
coisas sempre inconcebíveis
desesperos apetecíveis
contrapontos, contradições
mistérios, segredos, paixões
espasmos de alegria e de dor.
E se alguém disser que não entende
que é possível sentir assim,
nunca ousou sofrer um pouco
ser livre, feliz e louco
porque tudo isso é Amor!
apl in 47 Poemas de Amor ©
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
ONTEM
Ontem matei o dia sem saudade
sem lembranças, sem mágoas
sem ressentimentos, sem fráguas
sem tristezas, sem recordações.
Ontem não tem mais hora nem sentido
é tempo morto, tempo perdido
é sonho castrado de ilusões.
Ontem é estrada crua sem saída
é roupa rasgada e ferida
é corpo nu de masturbações.
apl in Mentes Perversas
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
AQUI JAZ!
nem quinhentas pinturas de sois florescidos.
Aqui jaz a morte do meu pensamento.
Felizes os que não pensam nem se atormentam
nem falam, nem escrevem, nem coisa nenhuma
e se contentam com a missa de domingo
e o bailarico junto à Sé em dia de romaria.
Aqui jaz a morte do meu pensamento.
Nesta esquálida razão de quadras paralelas
nestes fios desordenados e sem ligação
nestes versos expostos a opiniões funestas
neste labirinto desordenado e clandestino.
Eis que me sepulto. E que descanse em paz.
Aqui jaz a morte do meu pensamento.
apl in Mentes Perversas ©
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
TODO O AMOR É ETERNO
Todo o Amor é eterno.
É eterno e dura eternamente.
Como as marés duram constantemente
Até a próxima maré voltar.
Como a Lua Cheia antes de ser minguante
Como a nortia antes de ser calmante
Como o nascente antes do sol se poisar.
Todo o Amor é eterno
É eterno e dura eternamente.
E enquanto dura que seja para sempre
Para sempre, até o Amor acabar!
apl in 47 Poemas de Amor
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
A TABACARIA DO SR. ANTÓNIO

As grandes marcas capturaram as vitrinas
transformando-as em montras cobiçadas de luz
onde os olhos padecem e sonham sonhos desiguais.
Só a Tabacaria do Sr. António continua igual
naquela porta que também dá acesso ao primeiro andar
onde a luz se esconde atrás do bafio das escadas velhas .
A Tabacaria do Sr. António não tem luz nem vitrinas novas.
Apenas as rugas que o tempo transformou em velhice
iguais às rugas da velhice do Sr. António
iguais à velhice das rugas dos clientes do Sr. António.
E esses parecem querer acabar no tempo,
que o tempo os tem levado, como um dia levará o Sr. António.
Hoje os jovens não lêem o jornal. Passam os olhos nas letras
gordas, enquanto o café é devorado em segundos
porque o tempo não deixa tempo para mais.
Aqueles a quem resta tempo, partilham o jornal
no café da esquina mais perto de casa, no intervalo
de um qualquer jogo de futebol.
Mesmo assim, o Sr. António continua naquele sorriso
espelhado nos dentes desiguais àqueles que outrora foram seus,
a entregar todos os dias o jornal aos clientes,
enquanto vai comentando as notícias que enchem
a primeira página de um qualquer jornal.
Um dia, um senhor de fato e gravata entrara-lhe na Tabacaria.
Mas não queria o jornal.
Queria a Tabacaria!
Não queria aquelas prateleiras velhas.
Queria a Tabacaria!
Não queria o sorriso do Sr. António
Porque sem Tabacaria o Sr. António não sorri.
Só queria a Tabacaria!
apl in “Mentes Perversas”

