quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

PARA TE TER



Para te ter

Para te ter
daria ao mundo todos os meus sentidos.

Só há um sentido no mundo
e o teu mundo é o meu princípio!

ana paula lavado © 



Fotografia - Francisco Navarro

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

QUANDO A NOITE SE APROXIMA


Quando a noite se aproxima

Quando a noite se aproxima
escureço as palavras
e beijo-as, como estrelas no infinito.
As palavras são mais tristes
à noite. São mais dolentes
nos olhos pesarosos de luz.
Dá-me os teus braços
para que neles escreva os versos
que a noite me oculta.
Isso será tudo. O meu olhar
procurará na tua pele
os seios das palavras
e elas iluminar-se-ão nos dedos.
Deles nascerão os versos
que te escreverei, meu amor!

ana paula lavado © 


Fotografia - Francisco Navarro

terça-feira, 5 de novembro de 2013

NÃO ME ATREVO



Não me atrevo

Não me atrevo a escrever
- se me atrevesse, tu saberias -
para dizer como sinto o “amor”.

As águas levar-te-ão as letras
- as mesmas que compõem “o mar”-
nos enigmas da maré preia.

Quando as tiveres nos olhos
- que elas querem-se invisíveis aos olhares -
ter-me-ás plena, lasciva, sereia!


ana paula lavado © 

(Foto retirada da internet) 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

FUI COM O MAR OUTRA VEZ



Fui com o mar outra vez

Entre a porta entreaberta o mar galgou
o soalho e as estantes.
Deixei de ver os livros por instantes,
e as luzes do dia morreram.
Não digo se sofri,
mas sei que os livros sofreram
com as letras diluídas de sentido.
Ah, se as tivesse podido
recompor em papel milimétrico,
reconstruir o seu ar estético,
devolver a existência do seu ser.
Não sei se é possível fazer,
nem sei se já alguém o fez.
Sei que o mar galgou o soalho e as estantes
e, como já fizera antes,
fui com o mar outra vez!

ana paula lavado © 


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

DE TODOS OS MARES


De todos os mares

De todos os mares
O meu é o mais belo
O mais azul
O mais singelo
De todos os mares
O mais belo.

Do seu vigor
Da sua espuma
Acácias e sumaúma
Da sua voz
Do seu tenor
Do seu rigor.

De todos os mares
O meu é o mais belo!

ana paula lavado © 



terça-feira, 1 de outubro de 2013

AMA-ME PELOS MEUS OLHOS



Ama-me pelos meus olhos

Quando a lua se enfeitiça
E o meu corpo se insinua
Nas noites de momentos escassos,

Quando as mãos guardam sem pejo
O gozo crispado do desejo
Estremecido nos teus braços,

Ama-me pelos meus olhos, somente
Que no olhar guardo constantemente
A nudez astral dos teus passos!

ana paula lavado © 



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

DAR-TE-EI




Dar-te-ei

Dá-me o sonho
Eu dar-te-ei as manhãs

Dá-me a boca
Eu dar-te-ei o desejo

Dá-me as mãos
Eu dar-te-ei o verso!

ana paula lavado © 


 Fotografia - Francisco Navarro

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

AQUI MORA O SILÊNCIO


Aqui mora o silêncio

Vêm bater à minha porta. Como se o batente
ruidoso acordasse a mente. As gentes não sabem
que não é assim que se acordam outras gentes? O solfejar
dos pássaros é mais sugestivo e encantador. Desperta-nos,
deslumbra-nos, e torna-nos mais férteis no pensamento.
Não batam à minha porta. Ela não tem culpa das vossas
irritações nem das vossas agonias.
Também não esperem que coloque um pássaro à minha porta.
Os pássaros nascem livres e viajantes, pousando apenas
onde o sossego os acolhe. E se pousarem à minha porta, é
porque ela é silente.
Não batam à minha porta, porque aqui mora o silêncio.

ana paula lavado © 

Fotografia - Francisco Navarro


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

QUANDO AS ÁRVORES CRESCEREM V



Quando as árvores crescerem V

Não te alheies da realidade. Nem abandones
os teus instintos, que neles todos os terás mistérios.
E dos mistérios se faz a aventura dos dias.
Como seiva da tua pele, buscarás no amanhecer
da primavera, as águas que fortalecerão o teu corpo. Os dias
iluminar-se-ão, quando  as árvores crescerem e
florirem seus frutos no teu ventre.
De todos os dias, espero sempre o nascente, para que
amanheças no meu corpo, e a natureza se torne mais bela.
Dos outros dias, nada sei. Nem donde vêm nem para onde vão,
que apenas sei onde estou. E onde estou, adormeço contigo.

ana paula lavado © 


Fotografia - Francisco Navarro

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

QUANDO AS ÁRVORES CRESCEREM IV



Quando as árvores crescerem IV

Descubro-me ao tempo sem que a fadiga me procure.
De todos os dias, resguardo a saliva dos olhos
para que o mar não se inunde antes da maré preia.
Trago nas mãos as cãs dos anos nefastos, furtivas nas
acácias que floriram no tempo da virgindade.
Se um dia me procurarem, encontrar-me-ão entre as palavras
impossíveis de escrever ou nos amplexos ilegíveis das letras.
Nos múltiplos prolongamentos da vida, saciei a sede
das ideias no lugar dos solitários, sem que o
movimento alterasse a iteração dos sonhos.
Quando as árvores crescerem, trar-me-ão os diamantes
da tua boca, lapidados no segredo dos amantes.


ana paula lavado ©  

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

QUANDO AS ÁRVORES CRESCEREM III



Quando as árvores crescerem III

No tempo das amendoeiras, os ramos
finalizam em flor, orgasticamente róseas de segredo.
Inunda-se o enigma das paixões, impendente em cada floração.
No tempo das amendoeiras alongo-me nos braços, para que
floresçam à semelhança do teu corpo. Róseo de ramos férteis
e iluminuras entre os dedos, percorres as linhas onde
te concebo, sem que o tempo desnude a fantasia.
As terras de xisto floram todas as luas, e quando
as árvores crescerem, as marés dos olhos florarão
sem que finde o tempo das amendoeiras.

ana paula lavado © 


terça-feira, 13 de agosto de 2013

QUANDO AS ÁRVORES CRESCEREM II



Quando as árvores crescerem II

Ontem o mar voltou a bramir. Brados murmúrios
que o vento prolongou sem que a memória
alterasse a sonância. Nunca vacila no ritmo
nem na espera dos homens, que eles voltam sempre
à hora que a faina ordena. Trazem sereias nos olhos e
redes enoveladas em espera, apertando os anseios
que os olhos ocultam.
Quando as árvores crescerem, moverão o xisto das raízes,
e elas prolongar-se-ão até ao mar. Esse mar onde vives
e me anima a existência, sem que o brilho das marés
revele a maré preia.
Quando voltar a bramir, o mar, voltarei sereia
ocultada nos teus olhos!

ana paula lavado © 


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

QUANDO AS ÁRVORES CRESCEREM



Quando as árvores crescerem

Não olhes para mim, que eu vagueio pelas ruas
desde que germinei. Os tempos modernos apenas
alteram as plantas, silenciando a cadência
das palavras. Explicar-te-ia as minhas escolhas
mas as pedras da rua continuam fascinantemente
iguais às de outrora. Duras e retorcidas em feldspato de rocha
metamórfica.
Quando as árvores crescerem, colherei as pétalas dos seus
frutos, e delas construirei os mais belos caprichos. Saberás
conhecê-los pelo meu perfume. Esse, que também
se mantém inalterável, não porque o tempo nada mais
tenha concebido, mas porque o  pretendo inalterado.
Lembro o dia que te conheci. Lembro tão repetidamente, que 
apenas não me sufoca, porque o faço com deliberação. 
Choquei-te de frente, na porta de uma estação com um nome
sem importância. Importou a vergonha dos olhos
que esconderam o rubor.
E se me olhares, relembro o rubor. Ama-me apenas
pelo perfume dos meus olhos!

ana paula lavado © 


 Fotografia - Francisco Navarro

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

SE OS TEMESSE



Se os temesse

Se os temesse, Meu Deus,
como temo a precocidade do fim,
nos horrores com que projectam maldição,
fugiria ao Mundo, ao Universo
como desígnio de condição.

Sejamos breves, que as constelações não demoram
mais que breves instantes da imaginação.
Se os temesse, Meu Deus,
como presságios de inoculação,
ocultaria os meus vícios de verdade
expurgaria os meus defeitos de imposição.

Se os temesse, Meu Deus.
Ah! Não os temo
nem lhes cobiço a imposição.
Que a sombra lhes engane a sorte
que a exactidão seja mais forte
que a sua vontade de imprecação.


ana paula lavado © 

Fotografia de Francisco Navarro 

terça-feira, 23 de julho de 2013

PASSARINHO



Passarinho

Vi um passarinho numa gaiola
sem voar
E vi um passarinho a voar
sem gaiola

Voo como um passarinho
sem gaiola
E com uma gaiola não voo
nem sou passarinho!

ana paula lavado © 



 ( Fotografia de Francisco Navarro )