sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

NÃO SOMOS!




Não somos!

Somos o vento que canta
A árvore mais alta da serra
Somos a gente que fala
Os versos da nossa terra.
Somos os silvos da noite
A luz que vem de madrugada
O silêncio na voz dos que calam
Somos os errantes da estrada.

Somos tudo, somos nada
Somos a inconstância da vida
Somos os Invernos que matam
Somos a Primavera florida.

Somos reis do des-reinado
Governantes do deserto
Somos povo habituado
Ao castigo mais perverso.
Somos veste que nos cobre
Sem ganância nem grandeza
A injúria de quem comanda
A grata sorte da esperteza.
Somos aqueles que caiem
Sem eira nem beira no desatino
Somos pasto que nutre a seiva
Dos que marcam o destino.
Somos a voz gasta da tortura
A gaguez que move sem graça
Somos o lixo onde cospem
Os ditadores da desgraça.

Somos tudo, somos nada
Somos peças da disputa
Somos trapos que nos rasgam
Mas não somos Filhos-da-Puta!

ana paula lavado © 

(foto da internet) 

Morning

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

JÁ PASSAVA DA NOITE



Já passava da noite

Já passava da noite
quando junto ao cais da despedida
o silêncio intransmissível das sombras
esperava apenas o regresso.

Já passava da noite
quando junto às areias do oceano
apenas havia o pavio dos barcos
que caminhavam para a faina.

Já passava da noite
quando as sereias despertaram
e me trouxeram o sossego
do sabor quente do teu corpo.

ana paula lavado © 

(foto da internet)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

SONHO




Sonho

A parte inefável do ser
A que traduz o indizível
Soletra-me na ponta dos dedos
O silêncio da aragem miúda.

Tu não sabias, ninguém sabia,
Que neste sorriso languescente
Escondo o verbo esquecer.

Num caminho sinuoso, entorpecente,
Ninguém sabia, nem tu sabias,
Que nos instantes que tenho
Sonho-te, sem te perder.

ana paula lavado © 

 (foto da internet)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

CATIVEIRO



Cativeiro

Fui cativeira do desnorte
talvez por penúria da sorte
talvez por tresloucada sina.
Ao longo do tempo filosofei
numa escusada busca de verdade
e nem por força da vontade
vi loucura simples e cristalina.
Mísera sorte que contamina
estranha condição tão entranhada
de combater tão desigualada
nas partes desiguais da igualdade.
Haja liberdade para lá do ensejo
onde este infortúnio cativeiro
será proscrito pela verdade.

ana paula lavado © 

(foto da internet) 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

ANTES QUE SEJA MADRUGADA




Antes que seja madrugada

Antes que seja madrugada
Encosta os meus sonhos ao peito
Namora o meu rosto no leito
E despe o meu sono de alvorada.

Antes que seja o alvor
Soletra o meu corpo por anáforas
Desnuda a minha pele por metáforas
E ama-me como ama o Amor.

ana paula lavado © 

(foto da internet)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

ÉS TU


És tu

És tu. Sim, és tu
Que no límpido universo me renasce
Como a aurora se recupera em boreais
Ensaiando os abrigos da natureza.

Tu, palavra que me veste por dentro
Onde os areais se transladam
No sal da minha pele languescente
Tu.

Serei a metáfora da mais singela das sereias
Que o mar esconde nos alhais de espuma
Poema contido na transparência das sílabas
Seduzindo a luz que invade as pupilas
Tu.

ana paula lavado ©  

 (foto da internet)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

RUAS


Ruas

Por trás das ruas
Silenciosas de rumores
Mil poemas se empalidecem
Na obscuridade das sombras.
Perderam-se as palavras
Nas portas sem número
Alinhadas escrupulosamente
Por ordem nominal.
Ninguém por certo adivinha
Que numa travessa sem nome
Havia um caminho para o mar.
E no silêncio agreste que não vinha
Fui eu com as palavras nas mãos
Escrever um poema para te dar!

ana paula lavado ©  

 (foto da internet)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

CHEGOU O MOMENTO DE CHAMAR PELO TEU NOME



Chegou o momento de chamar pelo teu nome

Chegou o momento de chamar pelo teu nome
porque todas as coisas eruditas que existem lá fora
deixam de fazer sentido sem o teu nome.
Gracejo, quando me lembro das nossas graças
dos risos depauperados de sentido
quando o riso apenas espelha o contentamento.

Chegou o momento de chamar pelo teu nome
independentemente dos olhares sigilosos
que trocamos por malícia.
Tantos que não sabem o quanto fascino
nem imaginam o enigma que faço com as letras
quando me atrevo a escrever o teu nome.

Chegou o momento de escrever o teu nome
com todas as letras que aprendi alfabeticamente
e que ordeno de forma eficaz.
E por fim verterei a tinta do tinteiro
soletrando no papel todas as letras do teu nome.

ana paula lavado ©  

(foto tirada da internet)

sábado, 24 de novembro de 2012

AMANHECER



Amanhecer

espero sempre o outro dia
- que este já está vivido –
em que outra flor descerre
e possa abrir o sol pela manhã

há sempre esperança na madrugada
quando amanheço no teu leito.

ana paula lavado ©  




sexta-feira, 23 de novembro de 2012

CHAMAR-TE-EI MAR



Chamar-te-ei Mar

Pensei chamar-te Flor
Mas morrerias quando as pétalas caíssem.

Chamar-te-ei Mar
Porque assim serás infindo!

ana paula lavado ©  


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

AS MÃOS


As mãos

As mãos. A sua cálida
e serena pele
tão alva
como um areal deserto
derramado
no meu peito,
as mãos,
como chama acesa
de desejo
das coisas simples.

Amadas, sim, as mãos
leais e dóceis
como branca é a melancolia.

As mãos. Cativas
na sua cálida
e serena pele
tão alva
como a alma aspira.

ana paula lavado ©  

(foto da internet)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

SE CHOREI, NÃO SEI




Se chorei, não sei

São menos afortunados os filhos de ninguém
vendendo a alma nas esquinas do ócio
esperando o reconforto do esquecimento.

Olhei-o, como quem olha um cadáver vivo
bebendo a dor com as lágrimas que não chorei.
E se chorei, não sei.

Olhamo-nos como se olham os indiferentes
que não reconhecem a quietude
nem as faces dos olhos.
Não há piedade na voz nem nos gestos
aprisionados de vazio e de deserto.

Deixei-o para trás com as lágrimas que não chorei.
E se chorei, não sei.

ana paula lavado ©  

 (foto retirada da internet)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

TEM TANTA PRESSA O AMOR




Tem tanta pressa o amor

Tem tanta pressa o amor
Que as mãos se acidam por inteiro
Sem espera do amor primeiro.

Tem tanta pressa o amor
Que não ouve a voz dos cabelos
Deslisados de fadiga.

Tem tanta pressa o amor
Que nada conhece e nada vê
E nada sabe do amor.

ana paula lavado ©  

 (foto retirada da internet)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

NÃO É ESTE SOSSEGO




Não é este sossego

Não é este sossego
que me adivinha
nem o magro sonho
que me eterniza.
Alcançarei o mundo
num invento
numa palavra esdrúxula
qualquer
na tua boca
junto da minha boca
no teu anseio de me quereres
mulher.

 ana paula lavado ©  

 (foto retirada da internet)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

OUSA CINGIR-ME O VENTRE




Ousa cingir-me o ventre

Ousa cingir-me o ventre
onde correm as águas quentes
que trespassam a raiz dos mares.

Tange a minha cintura
na tua cintura
plasmando os anseios do corpo
a cada mudança da maré
como cristais no fundo do oceano.

E, por fim, despe-me
como a brancura da neve fria
quando se aproxima da chama.

Assim serei tua, diz-me tu,
interminavelmente.

ana paula lavado ©  

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O TEMPO



O Tempo

O tempo é somente a existência
Passada numa única intermitência
Entre o nascimento e a morte.

O tempo é somente o interlúdio
O espaço reservado entre cenas
Com termo marcado na inserção.

O tempo é somente a entrepausa
O lugar que é entregue em sorte
Existido meramente por condição.

ana paula lavado ©  




terça-feira, 6 de novembro de 2012

TU




Tu

Tenho
Apenas e só
Esta razão

Onde
O tudo
E o nada
São

Tu
És o todo
Do tudo

E o nada
É somente
Ilusão.

ana paula lavado ©  




domingo, 4 de novembro de 2012

O QUE É O AMOR!



O que é o Amor!

Absorve-se o tempo
na ânsia do rumo principal
onde te traduzo.
Nas nuvens, esboço o teu rosto
e espero que a brisa acalme
para que ele perdure nos meus olhos.
E permaneces no infinito
como as aves clamando liberdade
no seu eterno divagar.
O que é o Amor
senão esta vontade peregrina
de repousar no teu peito,
este anseio imortal
que se derrama na voz portentosa do meu ventre?
Não serei eu mais do que te amo
porque o teu eterno, é o que resta de mim.

ana paula lavado ©