quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

SILÊNCIO

Silêncio e mais silêncio
A água corria algures pelo teu corpo
Ironicamente vestido de nada.
E eu bebia, e eu sugava
A voz incendiada pelo crepúsculo
Dum poema ainda sem palavras.

Tenho sede. E de repente abandono
As palavras de todos os dias
E o meu pulso alcança o teu leito
À procura de porto seguro.

E o meu corpo latejante
Move-se ao ritmo da tua pele.
E eu bebia, e eu sugava
As palavras que não eram ditas
Mas escorriam na água do teu corpo
Ironicamente vestido de nada.

ana paula lavado ©

sábado, 29 de outubro de 2011

Solidão

Diversas sortes percorri antigamente

Olhares dispersos caídos sobre o mar

Onde a morte era a palavra mais certa.


Nomeei meus sonhos de ironia

Num vago sentido de enfermidade

Neste sólido chão que me penetra.


Petrificada e inerte de juventude

Desmaio o olhar secreto sem temor

Num caminho descalço de receios.


E guardo-te nas algas do meu peito

Chamando por ti na minha solidão.

Lentidão

na súbita lentidão
enquanto me adio
vou perdendo desenganos

já não há ternura pouca
nos passou que nunca ousei

morro-me de nada
no silêncio da coisas
que escorrem na noite

e nos meus vidros exaustos
já nada mais há para morrer

ana paula lavado

terça-feira, 4 de maio de 2010

QUEM?


Que serei eu, se realmente não sei quem sou!
Nem sei o que penso, nem porque existo
nem porque todas as coisas existem.
As coisas são o que fazem delas
o que pensam delas
e não o que na realidade elas são.
E tudo pode ser irremediavelmente falso
ou irreparavelmente alterado
sem nunca ser o que é na verdade.
O mundo é apenas um logro
de preceitos e preconceitos
e verdades transformadas.
Feliz do que não é escravo da dúvida
e não questiona as coisas do mundo!

ana paula lavado in "Mentes Perversas"


sábado, 24 de abril de 2010

DEIXA QUE EU ME RIA!


Deixa que eu me ria
Que eu gargalhe fundo no meu íntimo
Deixa que transvaze esta ironia
Este remoque que me sufoca e asfixia
Esta farsa que se alastra e se apega
Que contagia.

Deixa que eu me ria
Que não goteje a mágoa deste dia
Que não lacrime, que não atormente
Que não chore, simplesmente.

Deixa que eu me ria
Que meu riso, mesmo hipocrisia
Me liberte, me afaste, me alivie
Me isente desse embuste que atrofia
Deste mundo falsário e pecaminoso
Deste perjuro, falso e doloso
Deixa que eu me ria
Deixa que eu me ria!


ana paula lavado in “Mentes Perversas” ©


segunda-feira, 12 de abril de 2010

VENHA!


Venha a morte que eu tenho tempo
não me angustia nem intimida
nem me faz ter pressa de chegar.
E no dia em que ela me encontrar
impor-lhe-ei a minha condição.
Não quero flores nem velório
nem lápide com inscrição.

Apenas um momento tão efémero
como efémera é a vida
translúcida de contentamento.
Entregai meu pó ao vento
porque só o vento me poderá inventar.

Venha a morte que eu tenho tempo!

ana paula lavado in “Mentes Perversas” ©

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

LOUCURA?



Dizem que a loucura é coisa dos dementes

e nos loucos apenas há insensatez.

Incoerência, discrepância, desconexão

insanidade, destempero, desunião.

Ou um simples desalinho

uma incomplexa contradição...


Talvez!


E porque é tão inerte não ter loucura

tão desumano não ser louco e imoderado,

tão desprovido de razão, tão destemperado,

que a vida sem loucura declarada

faz da razão um fragmento de nada

impõe ao criador uma perversa clausura!


apl in “Mentes Perversas” ©


quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

E A LOUCA SOU EU?





O mundo é perfeito!
E a louca sou eu?

E os conceitos
os preconceitos
os babelismos mentais
a prepotência dos fortes
a arrogância dos demais
as ejaculações do poder
e o poder dos anormais?

E a louca sou eu?

E os hipócritas
os dissimulados
os perversos
os disfarçados
os corrompidos
os corruptores
os refractários
e os manipuladores?

E a louca sou eu?

E os vigaristas
os burlões
os pedófilos
e os cabrões
os proxenetas
as prostitutas
os devassos
e as outras putas
os libertinos,
os debochados
os cornudos
e os enganados?

E a louca sou eu?

E os falsários
os perjuros
os fazedores de conjuros
os salteadores
os enganosos
os carrascos
e os leprosos
os assassinos
os ladrões
os verdugos
e os cabrões?

E a louca… sou eu?


ana paula lavado in “Mentes Perversas” ©

domingo, 10 de janeiro de 2010

ASA DE CONDOR OU GARÇA FERIDA



Temo não saber o pensamento

Que ter em relação à vida.

Oráculo esboçado num momento

Asa de condor ou garça ferida.


Tudo o que vem ou vai em vão

Aguarela debotada colorida sem cor

Fogo-fátuo de lava de vulcão

Garça ferida ou asa de condor.


Uma viagem sem término ou destino

Um destino sem ponto de partida

Uma partida feita de desatino

Asa de condor ou garça ferida!


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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

TUDO ISSO É AMOR



Nada se compara com o Amor

porque o Amor não se compara a coisa alguma.

Brisa leve, tempestade

mar revolto, suavidade

maresia, furacão

vento norte ou Sião

tudo isso é Amor

tudo isso é Paixão!


O Amor tem destas coisas

coisas essas que não alcanço

coisas sempre inconcebíveis

desesperos apetecíveis

contrapontos, contradições

mistérios, segredos, paixões

espasmos de alegria e de dor.


E se alguém disser que não entende

que é possível sentir assim,

nunca ousou sofrer um pouco

ser livre, feliz e louco

porque tudo isso é Amor!


apl in 47 Poemas de Amor ©



terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ONTEM


Ontem matei o dia sem saudade

sem lembranças, sem mágoas

sem ressentimentos, sem fráguas

sem tristezas, sem recordações.


Ontem não tem mais hora nem sentido

é tempo morto, tempo perdido

é sonho castrado de ilusões.


Ontem é estrada crua sem saída

é roupa rasgada e ferida

é corpo nu de masturbações.


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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

AQUI JAZ!

Já não há palavras nas coisas que escrevo

nem quinhentas pinturas de sois florescidos.

Aqui jaz a morte do meu pensamento.


Felizes os que não pensam nem se atormentam

nem falam, nem escrevem, nem coisa nenhuma

e se contentam com a missa de domingo

e o bailarico junto à Sé em dia de romaria.


Aqui jaz a morte do meu pensamento.


Nesta esquálida razão de quadras paralelas

nestes fios desordenados e sem ligação

nestes versos expostos a opiniões funestas

neste labirinto desordenado e clandestino.


Eis que me sepulto. E que descanse em paz.

Aqui jaz a morte do meu pensamento.



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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

TODO O AMOR É ETERNO


Todo o Amor é eterno.

É eterno e dura eternamente.

Como as marés duram constantemente

Até a próxima maré voltar.

Como a Lua Cheia antes de ser minguante

Como a nortia antes de ser calmante

Como o nascente antes do sol se poisar.


Todo o Amor é eterno

É eterno e dura eternamente.

E enquanto dura que seja para sempre

Para sempre, até o Amor acabar!


apl in 47 Poemas de Amor


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A TABACARIA DO SR. ANTÓNIO




Aquela rua movimentada está diferente.
As grandes marcas capturaram as vitrinas
transformando-as em montras cobiçadas de luz
onde os olhos padecem e sonham sonhos desiguais.
Só a Tabacaria do Sr. António continua igual
naquela porta que também dá acesso ao primeiro andar
onde a luz se esconde atrás do bafio das escadas velhas .
A Tabacaria do Sr. António não tem luz nem vitrinas novas.
Apenas as rugas que o tempo transformou em velhice
iguais às rugas da velhice do Sr. António
iguais à velhice das rugas dos clientes do Sr. António.
E esses parecem querer acabar no tempo,
que o tempo os tem levado, como um dia levará o Sr. António.
Hoje os jovens não lêem o jornal. Passam os olhos nas letras
gordas, enquanto o café é devorado em segundos
porque o tempo não deixa tempo para mais.
Aqueles a quem resta tempo, partilham o jornal
no café da esquina mais perto de casa, no intervalo
de um qualquer jogo de futebol.
Mesmo assim, o Sr. António continua naquele sorriso
espelhado nos dentes desiguais àqueles que outrora foram seus,
a entregar todos os dias o jornal aos clientes,
enquanto vai comentando as notícias que enchem
a primeira página de um qualquer jornal.
Um dia, um senhor de fato e gravata entrara-lhe na Tabacaria.
Mas não queria o jornal.
Queria a Tabacaria!
Não queria aquelas prateleiras velhas.
Queria a Tabacaria!
Não queria o sorriso do Sr. António
Porque sem Tabacaria o Sr. António não sorri.
Só queria a Tabacaria!

apl in “Mentes Perversas”

terça-feira, 28 de julho de 2009

SILÊNCIO FRIO


Foi porque decidi ser assim

Que as palavras depressa sucumbiram

Dissecadas e sem lamento.


Ah, se soubesses que não escrevo

Nem historio nem me atrevo

A descobrir o que quero dizer.


Despedaçam-se os fólios passados

Desmancham-se os passos traçados

Mata-se a vontade de viver.


Resta apenas este chão vazio

Mistura de vinho acre e mosto seco

Fel, vinagre, e pecados que eu peco

Sepulcro amordaçado em silêncio frio.


apl in “Mentes Perversas” ©


terça-feira, 21 de julho de 2009

UM PEDAÇO DE... MORTE


Um pedaço de mar
Um quebranto na foz
Uma voz a falar
Um silêncio atroz.

Uma maré que grita
Um sexto sentido
Uma mão aflita
Um suor já gemido.

Uma estrela que morre
Um luar perecido
Uma palavra que sorve
Um combate morrido.

Uma estrada que geia
Um passo em desacerto
Um trecho que medeia
Um poema incerto.

Uma voz que limita
Um destino sem norte
Uma alma que grita
Um pedaço de morte!

apl in “Mentes Perversas” ©


sexta-feira, 17 de julho de 2009

OS LIMOS

Talvez os limos do mar

Deixados pela maré preia

Escrevam letras no silêncio

Que o mar escondeu na areia.


E as conchas ao murmurarem

Palavras de amor escondidas

Deixem inscritas na areia

As nossas palavras estendidas.


E nessa areia corada a limos

Que o mar amou sem pudor

Ficou escrito o que sentimos

No silêncio do nosso Amor.


apl in “47 Poemas de Amor” ©

terça-feira, 14 de julho de 2009

ESSE FANTASMA


Esse fantasma necrófago nem sequer tirou o chapéu

antes de entrar.

Falta se simetria no nevoeiro tornou-o imperceptível

e ele escapuliu-se.

De qualquer modo, não deixou a rudeza de fora.

Marmóreo e vítreo.

Que arrepio!

Torná-lo insignificante talvez fosse a solução.

Ignorar, simplesmente

e a transparência apoderar-se-á da sua delimitação

que o cheiro ficará inolente.

Já não o sinto

já ninguém o sente!


apl in “Mentes Perversas” ©



sábado, 4 de julho de 2009

A INVENÇÃO DO AMOR



O Amor não é mais que uma invenção dos sentidos

onde inventamos as invenções do corpo e da mente.

Não é mais que um paradoxo.

Seria um cepticismo, se não fosse uma constatação.

Somos prodigiosos na invenção.

Inventamos o mar, as flores, o pôr-do-sol,

e uma enormidade de expressões quixotescas.

Ridículo!

Devaneios que deveriam ser eliminados à nascença.

Não…

Nem sequer deveriam ter tempo para nascer.

Matá-los numa fase embrionária seria o mais razoável.

Evitavam-se o parto da entrega e o fluir da ilusão.

Tudo seria mais inteligível.

Trocar-se-iam prazeres momentâneos

por outros prazeres de igual expressão

sem dádivas interiores.

Uma troca simples e concreta. Um negócio.

Um contrato isento de assinaturas e promessas.

Não haveria lugar à sensação de entrega

e subsequente perda de uma parte de si.


Uma invenção!

Exactamente igual à invenção do Amor!


apl in “47 Poemas de Amor” ©



quinta-feira, 2 de julho de 2009

OS BÚZIOS




Quando os búzios acordarem
Nessa praia junto ao mar
Talvez o sol não se levante
Com medo de os despertar.

Porque entre cada grão de areia
Que a maré vaza não molhou
Ficaram escondidos segredos
Que a maré preia acautelou.

E se o sol fulgisse cedo
Mais cedo que o próprio alvor
Até os búzios saberiam
Que nos amamos sem pudor.

ana paula lavado ©