domingo, 10 de janeiro de 2010

ASA DE CONDOR OU GARÇA FERIDA



Temo não saber o pensamento

Que ter em relação à vida.

Oráculo esboçado num momento

Asa de condor ou garça ferida.


Tudo o que vem ou vai em vão

Aguarela debotada colorida sem cor

Fogo-fátuo de lava de vulcão

Garça ferida ou asa de condor.


Uma viagem sem término ou destino

Um destino sem ponto de partida

Uma partida feita de desatino

Asa de condor ou garça ferida!


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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

TUDO ISSO É AMOR



Nada se compara com o Amor

porque o Amor não se compara a coisa alguma.

Brisa leve, tempestade

mar revolto, suavidade

maresia, furacão

vento norte ou Sião

tudo isso é Amor

tudo isso é Paixão!


O Amor tem destas coisas

coisas essas que não alcanço

coisas sempre inconcebíveis

desesperos apetecíveis

contrapontos, contradições

mistérios, segredos, paixões

espasmos de alegria e de dor.


E se alguém disser que não entende

que é possível sentir assim,

nunca ousou sofrer um pouco

ser livre, feliz e louco

porque tudo isso é Amor!


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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ONTEM


Ontem matei o dia sem saudade

sem lembranças, sem mágoas

sem ressentimentos, sem fráguas

sem tristezas, sem recordações.


Ontem não tem mais hora nem sentido

é tempo morto, tempo perdido

é sonho castrado de ilusões.


Ontem é estrada crua sem saída

é roupa rasgada e ferida

é corpo nu de masturbações.


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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

AQUI JAZ!

Já não há palavras nas coisas que escrevo

nem quinhentas pinturas de sois florescidos.

Aqui jaz a morte do meu pensamento.


Felizes os que não pensam nem se atormentam

nem falam, nem escrevem, nem coisa nenhuma

e se contentam com a missa de domingo

e o bailarico junto à Sé em dia de romaria.


Aqui jaz a morte do meu pensamento.


Nesta esquálida razão de quadras paralelas

nestes fios desordenados e sem ligação

nestes versos expostos a opiniões funestas

neste labirinto desordenado e clandestino.


Eis que me sepulto. E que descanse em paz.

Aqui jaz a morte do meu pensamento.



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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

TODO O AMOR É ETERNO


Todo o Amor é eterno.

É eterno e dura eternamente.

Como as marés duram constantemente

Até a próxima maré voltar.

Como a Lua Cheia antes de ser minguante

Como a nortia antes de ser calmante

Como o nascente antes do sol se poisar.


Todo o Amor é eterno

É eterno e dura eternamente.

E enquanto dura que seja para sempre

Para sempre, até o Amor acabar!


apl in 47 Poemas de Amor


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A TABACARIA DO SR. ANTÓNIO




Aquela rua movimentada está diferente.
As grandes marcas capturaram as vitrinas
transformando-as em montras cobiçadas de luz
onde os olhos padecem e sonham sonhos desiguais.
Só a Tabacaria do Sr. António continua igual
naquela porta que também dá acesso ao primeiro andar
onde a luz se esconde atrás do bafio das escadas velhas .
A Tabacaria do Sr. António não tem luz nem vitrinas novas.
Apenas as rugas que o tempo transformou em velhice
iguais às rugas da velhice do Sr. António
iguais à velhice das rugas dos clientes do Sr. António.
E esses parecem querer acabar no tempo,
que o tempo os tem levado, como um dia levará o Sr. António.
Hoje os jovens não lêem o jornal. Passam os olhos nas letras
gordas, enquanto o café é devorado em segundos
porque o tempo não deixa tempo para mais.
Aqueles a quem resta tempo, partilham o jornal
no café da esquina mais perto de casa, no intervalo
de um qualquer jogo de futebol.
Mesmo assim, o Sr. António continua naquele sorriso
espelhado nos dentes desiguais àqueles que outrora foram seus,
a entregar todos os dias o jornal aos clientes,
enquanto vai comentando as notícias que enchem
a primeira página de um qualquer jornal.
Um dia, um senhor de fato e gravata entrara-lhe na Tabacaria.
Mas não queria o jornal.
Queria a Tabacaria!
Não queria aquelas prateleiras velhas.
Queria a Tabacaria!
Não queria o sorriso do Sr. António
Porque sem Tabacaria o Sr. António não sorri.
Só queria a Tabacaria!

apl in “Mentes Perversas”

terça-feira, 28 de julho de 2009

SILÊNCIO FRIO


Foi porque decidi ser assim

Que as palavras depressa sucumbiram

Dissecadas e sem lamento.


Ah, se soubesses que não escrevo

Nem historio nem me atrevo

A descobrir o que quero dizer.


Despedaçam-se os fólios passados

Desmancham-se os passos traçados

Mata-se a vontade de viver.


Resta apenas este chão vazio

Mistura de vinho acre e mosto seco

Fel, vinagre, e pecados que eu peco

Sepulcro amordaçado em silêncio frio.


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terça-feira, 21 de julho de 2009

UM PEDAÇO DE... MORTE


Um pedaço de mar
Um quebranto na foz
Uma voz a falar
Um silêncio atroz.

Uma maré que grita
Um sexto sentido
Uma mão aflita
Um suor já gemido.

Uma estrela que morre
Um luar perecido
Uma palavra que sorve
Um combate morrido.

Uma estrada que geia
Um passo em desacerto
Um trecho que medeia
Um poema incerto.

Uma voz que limita
Um destino sem norte
Uma alma que grita
Um pedaço de morte!

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sexta-feira, 17 de julho de 2009

OS LIMOS

Talvez os limos do mar

Deixados pela maré preia

Escrevam letras no silêncio

Que o mar escondeu na areia.


E as conchas ao murmurarem

Palavras de amor escondidas

Deixem inscritas na areia

As nossas palavras estendidas.


E nessa areia corada a limos

Que o mar amou sem pudor

Ficou escrito o que sentimos

No silêncio do nosso Amor.


apl in “47 Poemas de Amor” ©

terça-feira, 14 de julho de 2009

ESSE FANTASMA


Esse fantasma necrófago nem sequer tirou o chapéu

antes de entrar.

Falta se simetria no nevoeiro tornou-o imperceptível

e ele escapuliu-se.

De qualquer modo, não deixou a rudeza de fora.

Marmóreo e vítreo.

Que arrepio!

Torná-lo insignificante talvez fosse a solução.

Ignorar, simplesmente

e a transparência apoderar-se-á da sua delimitação

que o cheiro ficará inolente.

Já não o sinto

já ninguém o sente!


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sábado, 4 de julho de 2009

A INVENÇÃO DO AMOR



O Amor não é mais que uma invenção dos sentidos

onde inventamos as invenções do corpo e da mente.

Não é mais que um paradoxo.

Seria um cepticismo, se não fosse uma constatação.

Somos prodigiosos na invenção.

Inventamos o mar, as flores, o pôr-do-sol,

e uma enormidade de expressões quixotescas.

Ridículo!

Devaneios que deveriam ser eliminados à nascença.

Não…

Nem sequer deveriam ter tempo para nascer.

Matá-los numa fase embrionária seria o mais razoável.

Evitavam-se o parto da entrega e o fluir da ilusão.

Tudo seria mais inteligível.

Trocar-se-iam prazeres momentâneos

por outros prazeres de igual expressão

sem dádivas interiores.

Uma troca simples e concreta. Um negócio.

Um contrato isento de assinaturas e promessas.

Não haveria lugar à sensação de entrega

e subsequente perda de uma parte de si.


Uma invenção!

Exactamente igual à invenção do Amor!


apl in “47 Poemas de Amor” ©



quinta-feira, 2 de julho de 2009

OS BÚZIOS




Quando os búzios acordarem
Nessa praia junto ao mar
Talvez o sol não se levante
Com medo de os despertar.

Porque entre cada grão de areia
Que a maré vaza não molhou
Ficaram escondidos segredos
Que a maré preia acautelou.

E se o sol fulgisse cedo
Mais cedo que o próprio alvor
Até os búzios saberiam
Que nos amamos sem pudor.

ana paula lavado ©



terça-feira, 30 de junho de 2009

A VERDADE DA MENTIRA


Como é espantosa a mente humana

capaz de grandes feitos e invenções

deste o fogo à penicilina

do LSD, à estricnina

até à bomba de neutrões!


Até houve quem inventasse o sol

a chuva, o raio e o trovão

o mar, os rios e as cores

a terra, as plantas e as flores

e ainda a polinização!


Tudo se inventa, tudo se transforma

nem a verdade foge ao achamento.

Aos gestos moldam-se os tons

às letras alteram-se os sons

e temos a mentira como invento!


apl in “Mentes Perversas” ©


sexta-feira, 26 de junho de 2009

A PORTA DA RUA


Ontem empurrei a porta da rua

com mais força do que o costume

e com ela empurrei a minha ira também.

Não sei se é costume

as outras pessoas empurrarem a porta da rua

quando querem empurrar a ira também.

Mas eu empurrei a porta da rua

e empurrei a minha ira também.


Amanhã não vou abrir a porta da rua.

E depois de amanhã

não vou abrir a porta da rua também.

Vão ficar as duas do lado de fora

vão ficar as duas do lado da rua

e do lado de dentro

a porta fica fechada também.


E quando a ira se for embora

e do lado de fora só estiver a porta da rua

eu vou abrir a porta da rua

e vou abrir a porta de dentro também.


apl in “Mentes Perversas” ©


sábado, 20 de junho de 2009

AMOR!


Julguei-me Rainha de mim

Livre, ousada, soberana.

Mas tudo é tão diferente

Quando a alma arde e sente

O fogo de quem nos ama!


E prostram-se todas a armas

Que pensamos erguer com ousadia.

Trocam-se as forças por um beijo

Transformam-se as vontades em desejo

Muda-se a vida por mais um dia!


E se alguém disser que é mentira

E que não existe tal ardor,

Nunca ousou ser livre e louco

Nunca trocou tudo por um pouco

De tudo aquilo que dá o Amor!


apl in “47 Poemas de Amor” ©


sexta-feira, 19 de junho de 2009

ELES VOLTAM!


isto é apenas

o presságio de um verso

um acesso de irritação

um acaso sem caso

um fantasma disperso


eles vêm sempre

como predadores

de garras secretas

destruidores

rondam a presa

para abordar


e voltam

e voltam

e voltam

para atacar


esses amantes

de ventres erectos

devassos, obscenos

impúdicos, abjectos

sem regra

sem lei

qual cio de animal


e voltam

e voltam

e voltam

como um chacal!


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domingo, 14 de junho de 2009

ÀS SETE DA MANHÃ


Hoje deixei que a janela do meu quarto permanecesse quieta.

O silêncio das coisas termina para além daqueles vidros

onde a transparência se esconde atrás dum reposteiro.

Se a abrisse, talvez a calçada me lançasse em queixume

as maledicências que escutou às sete da manhã.

Não. Não vou ouvir. Não interessa ouvir falar

das coscuvilhices de que foi testemunha.

Vou permanece-la fechada por detrás da cortina

abafada no silêncio dum vidro que se tornou opaco.

Seria mais fácil ir apanhar ar. Deixar que as coisas

que não são naturais se tornassem naturais

e que a janela fechada se pudesse abrir

mesmo que fosse para escutar os queixumes da calçada.

E eu choraria com ela, porque essas coisas naturais

não passam de coisas que não são naturais,

mas existem como naturais, porque as pessoas as sentem naturais.


O sol é natural. A chuva é natural. Até a nortada

que me arrasta e desnorteia o pensamento, é natural.

O mar azul é natural, o mar cinzento é natural.

Até o mar verde que às sete da manhã se emerge

nos tons inigualáveis do nascente, é natural.

A vida deveria ser feita apenas de coisas naturais.

Seria mais fácil às sete da manhã abrir a janela

e cheirar o odor do canto dos pássaros, aspirar o prazer

com que o sol rompe cada pedaço da noite e a transforma.

É o ciclo natural da vida, tal como nascer e morrer.

Deveria ser natural abrir a janela às sete da manhã e deixar

que o silêncio do amanhecer inundasse o dia.

Mas às sete da manhã, ouço os queixumes da calçada.


E o mundo avança repleto de coisas que não são naturais

mas que aparecem como naturais, porque se querem com tal.

Mesmo os queixumes das pedras da calçada, que às sete da manhã

se reprimem para não contar as maledicências

que foram deixadas caídas nos seus pedaços!


apl in “Mentes Perversas” ©

domingo, 7 de junho de 2009

BOM SENSO


Nada temo na minha conduta. Não será perfeita. Mas quem atingiu a perfeição que a recrimine.
Caminho apenas com a convicção de que prefiro alhear-me das mentes insidiosas que calcam o mesmo chão que eu piso, consciente de que nada acrescentarão ao meu espírito, além de mediocridade.
Nada poderei contra os que não partilhem das minhas crenças e conceitos. Mas também nada farei para os demover da sua opinião. A liberdade de pensamento é sagrada, tal como são sagrados os Direitos Humanos.
É nesta base que rejo todas as minhas atitudes, mantendo-me céptica em relação ao futuro daqueles que se acham providos da certeza absoluta.
Procuro somente a verdade. O acto de duvidar é indubitável. Consequentemente, nada poderei acreditar, até que me possa ser provado.
E é nesta procura que continuarei a minha caminhada, enquanto a debilidade de pensamento não se apoderar das minhas fraquezas, e eu tiver lucidez e perseverança necessárias para que os meus conceitos sejam construídos com base nessa premissa.
E que Deus permita que o bom senso me acompanhe sempre!


O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de se contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que têm.”
( Renné Descartes)


ana paula lavado  ©

quarta-feira, 3 de junho de 2009

HISTÓRIAS DE ENCANTAR


Não há história
nesta história.
Morreu logo no prólogo,
antes do capítulo um
mesmo antes
do era uma vez!
Era uma vez
uma história com magia...
Como nos contos de fadas
com príncipes e princesas
e sapatinhos de cristal!
Com cenários do reino dourado
com tapetes voadores
lâmpadas de Aladino
e um monstro que não faz mal.
Com estrelas e um Sininho
uma Terra do Nunca
e até um Peter Pan...
Mas pensar nisso
é coisa vã.
Não que eu não soubesse
relatar toda a magia.
Mas o actor principal
desistiu do papel
logo antes do primeiro acto.
E sem actor...já não há peça.
Isso é um facto.
Troquemos então as voltas
e arranjemos outro actor.
Um daqueles que não desista
antes de o epilogo chegar.
E recomecemos a história
com reis, princesas
e sapatinhos de cristal,
o Sininho e o Peter Pan
e o monstro que não faz mal.
E que história comece
“Era uma vez
no reino de além-mar...
... e foram felizes para sempre!”
como nas histórias de encantar!


ana paula lavado in “Um Beijo… Sem Nome” ©


segunda-feira, 1 de junho de 2009

TUDO O QUE FUI... É NINGUÉM!





Quando eu morrer
não quero letras num epitáfio
nem lápide com inscrição.
Já nada mais farei
e o fiz, foi em vão.
A minha vida tem apenas dois momentos
o meu nascimento
e a minha morte.
Todo o resto foi casualidade
um intervalo efémero
sem pontualidade
e sem sorte.
E mesmo que algum momento
possa ter tido relevância
terá por qualquer acidente
perdido a sua importância.
Nada deixarei
que precise ser lembrado
ou guardado por alguém.
Já nada mais serei
e tudo o que fui
é ninguém!


apl in “Mentes Perversas” ©