Nada temo na minha conduta. Não será perfeita. Mas quem atingiu a perfeição que a recrimine.
Caminho apenas com a convicção de que prefiro alhear-me das mentes insidiosas que calcam o mesmo chão que eu piso, consciente de que nada acrescentarão ao meu espírito, além de mediocridade.
Nada poderei contra os que não partilhem das minhas crenças e conceitos. Mas também nada farei para os demover da sua opinião. A liberdade de pensamento é sagrada, tal como são sagrados os Direitos Humanos.
É nesta base que rejo todas as minhas atitudes, mantendo-me céptica em relação ao futuro daqueles que se acham providos da certeza absoluta.
Procuro somente a verdade. O acto de duvidar é indubitável. Consequentemente, nada poderei acreditar, até que me possa ser provado.
E é nesta procura que continuarei a minha caminhada, enquanto a debilidade de pensamento não se apoderar das minhas fraquezas, e eu tiver lucidez e perseverança necessárias para que os meus conceitos sejam construídos com base nessa premissa.
E que Deus permita que o bom senso me acompanhe sempre!
“O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de se contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que têm.”
Não há história
nesta história.
Morreu logo no prólogo,
antes do capítulo um
mesmo antes
do era uma vez!
Era uma vez
uma história com magia...
Como nos contos de fadas
com príncipes e princesas
e sapatinhos de cristal!
Com cenários do reino dourado
com tapetes voadores
lâmpadas de Aladino
e um monstro que não faz mal.
Com estrelas e um Sininho
uma Terra do Nunca
e até um Peter Pan...
Mas pensar nisso
é coisa vã.
Não que eu não soubesse
relatar toda a magia.
Mas o actor principal
desistiu do papel
logo antes do primeiro acto.
E sem actor...já não há peça.
Isso é um facto.
Troquemos então as voltas
e arranjemos outro actor.
Um daqueles que não desista
antes de o epilogo chegar.
E recomecemos a história
com reis, princesas
e sapatinhos de cristal,
o Sininho e o Peter Pan
e o monstro que não faz mal.
E que história comece
“Era uma vez
no reino de além-mar...
... e foram felizes para sempre!”
como nas histórias de encantar!
Quando eu morrer não quero letras num epitáfio nem lápide com inscrição. Já nada mais farei e o fiz, foi em vão. A minha vida tem apenas dois momentos o meu nascimento e a minha morte. Todo o resto foi casualidade um intervalo efémero sem pontualidade e sem sorte. E mesmo que algum momento possa ter tido relevância terá por qualquer acidente perdido a sua importância. Nada deixarei que precise ser lembrado ou guardado por alguém. Já nada mais serei e tudo o que fui é ninguém!
"Teria de inventar uma forma especial, para agradecer a todos aqueles que me rodearam durante este último ano. Teria de escrever num registo diferente. Num sabor com outros aromas, outras fragrâncias, outras colorações. As letras não são fáceis. Providas de um sem número de combinações, deslumbram ou atordoam a mente, em conjugações complexas nem sempre fáceis de decifrar. Sentidos dúbios, sentidos duplos, sentidos sem sentido… Nem sempre as letras são suficientes para que as palavras tenham expressão. Incompletas ou incongruentes, acumulam-se desordenadamente em trilhos horizontais, que preenchem folhas incalculáveis de ideias incertas. Haverá os mais dotados, que as contornam e dominam, intemporalizando uma beleza inestimável de acordes musicais, fazendo uma verdadeira sinfonia de sabores, que nos preenche e ilumina o espírito. Talvez desses, tenhamos que «roubar» o ar que respiramos. Talvez nesses, possamos completar-nos nas nossas limitações. Talvez com esses, consigamos encontrar o verdadeiro sentido das palavras, com outros aromas, outras fragrâncias e outras colorações. Talvez com esses, fosse iluminada pelas palavras correctas, para que este agradecimento pudesse ter a dimensão certa."
Este texto foi publicado no livro "Um Beijo... Sem Nome", como agradecimento a sete pessoas, que de uma forma ou de outra, se tornaram imprescindíveis, tanto na minha vida, como na realização deste livro. Hoje, ele aparece aqui, para agradecer a todos os que nestes últimos tempos me têm apoiado, para que o meu sonho não se suicide.
O ar quente que se nos abate logo que se pisa solo Angolano é sufocante. Sufocante e envolvente ao mesmo tempo. Mas quem ama África, sente-o como que balsâmico. Aquece-nos a alma, tornando-nos audazes, destemidos. O despudor com que nos penetra na pele, faz-nos sentir como que parte de si. Não é em vão que muitas vezes digo que “Quem vai a África por um dia, ama África para toda a vida”. África tem uma forma inesgotável de se amar. As cores têm outra cor, os cheiros outra intensidade, o chão, a marca indelével do sol africano: vermelho, intenso, quente e penetrante.
África! A minha África é no pedaço ocidental a norte do deserto do Namib. A minha África é aquele quadrado de terra vermelha que contempla o Atlântico, dando-lhe um sol para adormecer todos os dias. A minha África é aquela que me viu nascer, aquela que me criou e me ensinou a amar sem limites ou restrições. Deixá-la, foi como perder o primeiro amor. Sobrevive-se, mas jamais se esquece. E um dia reencontrado, despoletam-se todos os sentimentos religiosamente guardados, para que ninguém tivesse o despudor de os violentar. África! A única paixão que não é efémera, e que prolonga para além do tempo.
Senti-la, mais de três décadas depois, voltar a pisar o seu chão, a abraçar o seu cheiro, foi como recuperar um sonho perdido algures no tempo. Há sentires que não se reproduzem no papel. Incapazes de um adjectivo que os qualifique sem os desvirtuar, apenas se tornam descritíveis pelo olhar ou pelos gestos de quem os sente.
Luanda! Luanda é apenas a visão da nossa memória consumida pelo tempo. Não encontrei a Luanda que havia deixado. Não porque o tempo a tenha transformado, mas porque o tempo a destruiu. Os lugares passaram a ter uma cor soturna de anos de delapidação, desleixo e degradação, moldando-a numa paisagem dolorosa e quase dantesca. As chapas de zinco invadiram a cidade com o despudor e a arrogância da lei da sobrevivência. Retalhos consequentes de quase três décadas de guerra civil, onde o mais importante deixa de ser viver, para ser sobreviver. Luanda é hoje fruto da invasão desmedida das populações do interior, em busca de um abrigo aparentemente mais seguro. A população multiplicou por dez, tornando a cidade completamente intransitável. Os musseques misturam-se e alongam-se desmesuradamente, fazendo do centro da cidade um círculo atrofiado e sufocante.
Durante o dia, Luanda é um verdadeiro caos. Uma amálgama de carros, onde a regra de transito que prevalece, é a regra do mais audaz. A poeira existente no ar, mistura-se-nos na pele, conferindo-lhe um tom baço, que apenas o brilho do sol consegue disfarçar. O tempo adquire uma outra dimensão. As horas deixam de ser horas, para se resumirem a ser apenas tempo. É impossível calcular o tempo, chegar a tempo, ou mesmo saber quanto tempo. E chega a noite. A cidade adormece num silencio quase assustador. Mas Luanda adquire um brilho diferente. As ruas desertas recebem-nos com um tom mais familiar às memórias de outrora. A luz na noite dignifica-a, enobrecendo-a com o brilho do luar africano. No intervalo destes dois contrastes, fica uma Luanda que parece querer nascer de novo. A reconstrução aparece-nos numa escala quase impossível de descrever. As construções novas multiplicam-se, numa arquitectura completamente deslumbrante. É uma outra Luanda a renascer, uma outra Luanda que nos irá apaixonar de novo.
Entre o que foi, o que é e o que será, está a Luanda que eu amo. A Luanda dos chinelos no chão quente, do sol com sabor a manga, da terra vermelha que nos aquece a alma.
Esta á a minha África. A África que tenho crivada na pele, a África pela qual eu dispo todo o Europeísmo que nunca me pertenceu.
Cheirei as picadas de poeira e sol quente O odor do capim verde de Março As cubatas barrentas da sua gente Os sorrisos na face de qualquer abraço.
E amei sem pudor cada pedaço de chão Matando o tempo que o tempo roubou. Nada mais importa, nem mesmo a razão Quando a alma pertence ao chão que a gerou.
Tive-te em meu corpo, África Minha Trespassada na pele pelo sol ardente Naquela paixão que só o amor adivinha Naquele orgasmo que só o desejo consente.