quarta-feira, 18 de junho de 2014

ANTES QUE A VIDA LEVE TUDO



Antes que a vida leve tudo

no reflexo dos espelhos
a invenção mais clara
é a nudez suave da pele

é com ela que adormeço

antes que o sono me leve
antes do sonho ter começo

estendo a mão nos lençóis
enrugados de corpos amantes
se a noite se for antes da hora

é com ela que me desnudo

antes que a noite me dissolva
antes que a vida leve tudo.


ana paula lavado © 

Fotografia - Francisco Navarro 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

DÁ-ME O DESTINO



Dá-me o destino

Dá-me o destino, mesmo que a urgência
faça do insólito uma ave madura.
Quanto mais o tempo dura
mais o agreste cresce nos campos
mais os poentes se tornam amplos
mais as crenças descrençam a fé.
Nem o abismo, no seu sopé
é tão distante como o fim da tormenta.
Ó vigilante da vida, tenta, pelo menos tenta
que o infinito fique mais perto
que todas as areias do deserto
se imensem em águas transparentes.
O mundo apeja-se dos descrentes
e os montes acobardam-se das tempestades.
Em toda a vida e em todas as idades
há um sol a crescer por dentro
um lugar oblíquo e sem centro
onde gira a nossa sucessão.
Leva-me contigo, pega na minha mão
e afasta-me do lugar dos ausentes
liberta-me das crenças descrentes
e dá-me o destino por condição.


ana paula lavado © 

Fotografia - Francisco Navarro

terça-feira, 3 de junho de 2014

FAZ DE TI A MINHA HISTÓRIA



Faz de ti a minha história

Leva-me de volta à vida
desenlaça-me o movimento
move cada urze que passa
guia cada fantasma de vento.

Escreve o meu nome na estrada
alonga-me em lençóis de linho
descobre o fogo do mundo
solta os passos do meu caminho.

Faz cantigas com os astros
ilumina os meus segredos
abre as janelas fechadas
faz histórias dos meus dedos.

Leva-me de volta à vida
ao cume extremo da memória
tange o meu corpo no teu corpo
e faz de ti a minha história.

ana paula lavado © 


Fotografia - Francisco Navarro

sexta-feira, 23 de maio de 2014

segunda-feira, 12 de maio de 2014

BOLOR


Bolor

Entre as portas, avizinha-se o cheiro
que as paredes descalçam,
e o sol continua bolorento.
Entra frio e humidade nas palavras
e os livros são sempre iguais aos de outrora.
Pouso os óculos em cima de um papel
de letras imperceptíveis e desfeitas
e faço uma metáfora de cinza e cal.
Vi-te passar na rua, e levavas os olhos tristes,
cansados, da poeira dos dias
e das notícias que te matam a alegria.
Ri um pouco, nem que seja por simpatia
para retirar o bolor das paredes.
Ah! Já há humidade entre as portas
e as palavras fazem cada vez menos sentido.

ana paula lavado © 


Fotografia - Francisco Navarro

terça-feira, 29 de abril de 2014

FALA-ME AGORA. NÃO DEPOIS!



Fala-me agora. Não depois!

Fala-me da lucidez das coisas
Dos ventres que pariram as crenças mais terrenas
E dos sois que aclaram as palavras que não mentem.

Fala-me agora. Não depois!

Depois, até a dor se cansa das horas agoirentas
E a espera é sorrateira na demora.

Fala-me agora. Não depois!

Antes que mate os sonhos que não existem
No momento impreciso da concepção.
Chama-lhe o que quiseres
Desde que não te refugies na teimosia
E chames às coisas fruto da cegueira.

Fala-me agora. Não depois!

Depois, o tempo já é invernoso e triste
E as ideias tornam-se pouco claras à luz do dia.
As sombras reclamam rituais metafóricos
Na imanência redentora da morte.

Fala-me agora. Não depois!


ana paula lavado © 

Fotografia - Francisco Navarro


quinta-feira, 3 de abril de 2014

QUANDO AS ÁRVORES CRESCEREM VII



Quando as árvores crescerem VII

Repetem-se palavras desde a infinitude
dos tempos, sem que se alterem pontuações
aos sentimentos. Os caminhos cruzam-se
em todas as profecias, sacrificando a vontade dos
deuses perante a abundância da vontade dos Homens.
Erguem-se altares de sacrifício na euforia
da sobrevivência, esbracejando a um qualquer deus
mortal, a ironia da imortalidade.
O espectáculo é surrealista e o palco, transformado
em turba, exibe uma profusão de progenitores da
ferocidade.
Não bastará o tempo para apagar os instintos
mais ancestrais, nem bastará a aparência para
ocultar o selvagismo. Os olhos esventrados na
imperfeição, prestam culto ao deserto das coisas.
Quando as árvores crescerem, talvez renasça a 
esperança do mundo, e a serpente volte ao Paraíso.


ana paula lavado ©  

Fotografia - Francisco Navarro

quinta-feira, 6 de março de 2014

NÃO É PRECISO TEMPO PARA AMAR



Não é preciso tempo para amar

Todas as horas têm tempo
todo o tempo tem segundos
e todos os minutos profundos
têm sempre algo a dizer.
Talvez haja muito por fazer
talvez haja vida que não sei.
Sempre que por momentos parei
deixei a alma interrompida
provoquei sonolência à vida
desfalquei o prolongamento visceral.
Por favor, não levem a mal
não creiam que foi assunto premeditado.
Antes, erro de tempo impensado
por falta de completo discernimento.
Contudo sempre haverá tempo
de acrescentar minutos à existência.
De que serviria a coerência
se não houvesse tempo para viver?
Dos minutos que ainda possa ter
se a vida me der contentamento
vou amar, como se ama sem tempo
porque não é preciso tempo para amar.

ana paula lavado © 


Fotografia retirada da internet

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

VEM



Vem

vem, porque quero que a noite
seja o leito dos meus cansaços
vem, porque tremo na pele
o suor dos teus abraços

vem pela aurora, vem pela tarde
vem todas as horas que o corpo arde

vem pela noite, vem pela manhã
vem quando a espera já se espera vã

vem quando adormeço
vem quando amanheço
vem quando o sonho é um único começo

vem com o sol, vem com a lua
vem como se eu fosse a única tua

vem pelas ruas, vem pelas ruelas
vem pelas veredas mais estreitas das vielas

vem porque queres, vem porque quero
vem porque amas, vem porque espero!

ana paula lavado © 


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

OS PASSOS



Os passos

Onde encontrei os meus passos
sempre soube de onde vim,

de onde partiam os navios
do outro lado do mar.

Onde encontro os teus passos
sempre sei para onde vou,

aonde aportam os navios
deste lado do mar!

ana paula lavado © 


 Fotografia - Francisco Navarro

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

DIZ-ME EM QUANTAS NOITES


Diz-me em quantas noites

Diz-me em quantas noites, antes da aurora
dentro dos teus braços rodando os meus
como se o tempo não tivesse outrora
desnudei meus versos junto dos teus.

Cingindo o meu corpo ao teu corpo inteiro
partindo para o mar, como partem os navios
deixo nas tuas mãos todo o meu seio
deixo no teu corpo os meus desvarios.

Porque sei assim que o amor que tento
mesmo quando chega a hora de partir
posso entregar o meu corpo ao vento
para te envolver na hora de dormir.

ana paula lavado © 


Fotografia - Francisco Navarro

PARA TE TER



Para te ter

Para te ter
daria ao mundo todos os meus sentidos.

Só há um sentido no mundo
e o teu mundo é o meu princípio!

ana paula lavado © 



Fotografia - Francisco Navarro

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

QUANDO A NOITE SE APROXIMA


Quando a noite se aproxima

Quando a noite se aproxima
escureço as palavras
e beijo-as, como estrelas no infinito.
As palavras são mais tristes
à noite. São mais dolentes
nos olhos pesarosos de luz.
Dá-me os teus braços
para que neles escreva os versos
que a noite me oculta.
Isso será tudo. O meu olhar
procurará na tua pele
os seios das palavras
e elas iluminar-se-ão nos dedos.
Deles nascerão os versos
que te escreverei, meu amor!

ana paula lavado © 


Fotografia - Francisco Navarro

terça-feira, 5 de novembro de 2013

NÃO ME ATREVO



Não me atrevo

Não me atrevo a escrever
- se me atrevesse, tu saberias -
para dizer como sinto o “amor”.

As águas levar-te-ão as letras
- as mesmas que compõem “o mar”-
nos enigmas da maré preia.

Quando as tiveres nos olhos
- que elas querem-se invisíveis aos olhares -
ter-me-ás plena, lasciva, sereia!


ana paula lavado © 

(Foto retirada da internet)