terça-feira, 5 de novembro de 2013

NÃO ME ATREVO



Não me atrevo

Não me atrevo a escrever
- se me atrevesse, tu saberias -
para dizer como sinto o “amor”.

As águas levar-te-ão as letras
- as mesmas que compõem “o mar”-
nos enigmas da maré preia.

Quando as tiveres nos olhos
- que elas querem-se invisíveis aos olhares -
ter-me-ás plena, lasciva, sereia!


ana paula lavado © 

(Foto retirada da internet) 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

FUI COM O MAR OUTRA VEZ



Fui com o mar outra vez

Entre a porta entreaberta o mar galgou
o soalho e as estantes.
Deixei de ver os livros por instantes,
e as luzes do dia morreram.
Não digo se sofri,
mas sei que os livros sofreram
com as letras diluídas de sentido.
Ah, se as tivesse podido
recompor em papel milimétrico,
reconstruir o seu ar estético,
devolver a existência do seu ser.
Não sei se é possível fazer,
nem sei se já alguém o fez.
Sei que o mar galgou o soalho e as estantes
e, como já fizera antes,
fui com o mar outra vez!

ana paula lavado © 


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

DE TODOS OS MARES


De todos os mares

De todos os mares
O meu é o mais belo
O mais azul
O mais singelo
De todos os mares
O mais belo.

Do seu vigor
Da sua espuma
Acácias e sumaúma
Da sua voz
Do seu tenor
Do seu rigor.

De todos os mares
O meu é o mais belo!

ana paula lavado © 



terça-feira, 1 de outubro de 2013

AMA-ME PELOS MEUS OLHOS



Ama-me pelos meus olhos

Quando a lua se enfeitiça
E o meu corpo se insinua
Nas noites de momentos escassos,

Quando as mãos guardam sem pejo
O gozo crispado do desejo
Estremecido nos teus braços,

Ama-me pelos meus olhos, somente
Que no olhar guardo constantemente
A nudez astral dos teus passos!

ana paula lavado © 



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

DAR-TE-EI




Dar-te-ei

Dá-me o sonho
Eu dar-te-ei as manhãs

Dá-me a boca
Eu dar-te-ei o desejo

Dá-me as mãos
Eu dar-te-ei o verso!

ana paula lavado © 


 Fotografia - Francisco Navarro

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

AQUI MORA O SILÊNCIO


Aqui mora o silêncio

Vêm bater à minha porta. Como se o batente
ruidoso acordasse a mente. As gentes não sabem
que não é assim que se acordam outras gentes? O solfejar
dos pássaros é mais sugestivo e encantador. Desperta-nos,
deslumbra-nos, e torna-nos mais férteis no pensamento.
Não batam à minha porta. Ela não tem culpa das vossas
irritações nem das vossas agonias.
Também não esperem que coloque um pássaro à minha porta.
Os pássaros nascem livres e viajantes, pousando apenas
onde o sossego os acolhe. E se pousarem à minha porta, é
porque ela é silente.
Não batam à minha porta, porque aqui mora o silêncio.

ana paula lavado © 

Fotografia - Francisco Navarro


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

QUANDO AS ÁRVORES CRESCEREM V



Quando as árvores crescerem V

Não te alheies da realidade. Nem abandones
os teus instintos, que neles todos os terás mistérios.
E dos mistérios se faz a aventura dos dias.
Como seiva da tua pele, buscarás no amanhecer
da primavera, as águas que fortalecerão o teu corpo. Os dias
iluminar-se-ão, quando  as árvores crescerem e
florirem seus frutos no teu ventre.
De todos os dias, espero sempre o nascente, para que
amanheças no meu corpo, e a natureza se torne mais bela.
Dos outros dias, nada sei. Nem donde vêm nem para onde vão,
que apenas sei onde estou. E onde estou, adormeço contigo.

ana paula lavado © 


Fotografia - Francisco Navarro

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

QUANDO AS ÁRVORES CRESCEREM IV



Quando as árvores crescerem IV

Descubro-me ao tempo sem que a fadiga me procure.
De todos os dias, resguardo a saliva dos olhos
para que o mar não se inunde antes da maré preia.
Trago nas mãos as cãs dos anos nefastos, furtivas nas
acácias que floriram no tempo da virgindade.
Se um dia me procurarem, encontrar-me-ão entre as palavras
impossíveis de escrever ou nos amplexos ilegíveis das letras.
Nos múltiplos prolongamentos da vida, saciei a sede
das ideias no lugar dos solitários, sem que o
movimento alterasse a iteração dos sonhos.
Quando as árvores crescerem, trar-me-ão os diamantes
da tua boca, lapidados no segredo dos amantes.


ana paula lavado ©  

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

QUANDO AS ÁRVORES CRESCEREM III



Quando as árvores crescerem III

No tempo das amendoeiras, os ramos
finalizam em flor, orgasticamente róseas de segredo.
Inunda-se o enigma das paixões, impendente em cada floração.
No tempo das amendoeiras alongo-me nos braços, para que
floresçam à semelhança do teu corpo. Róseo de ramos férteis
e iluminuras entre os dedos, percorres as linhas onde
te concebo, sem que o tempo desnude a fantasia.
As terras de xisto floram todas as luas, e quando
as árvores crescerem, as marés dos olhos florarão
sem que finde o tempo das amendoeiras.

ana paula lavado © 


terça-feira, 13 de agosto de 2013

QUANDO AS ÁRVORES CRESCEREM II



Quando as árvores crescerem II

Ontem o mar voltou a bramir. Brados murmúrios
que o vento prolongou sem que a memória
alterasse a sonância. Nunca vacila no ritmo
nem na espera dos homens, que eles voltam sempre
à hora que a faina ordena. Trazem sereias nos olhos e
redes enoveladas em espera, apertando os anseios
que os olhos ocultam.
Quando as árvores crescerem, moverão o xisto das raízes,
e elas prolongar-se-ão até ao mar. Esse mar onde vives
e me anima a existência, sem que o brilho das marés
revele a maré preia.
Quando voltar a bramir, o mar, voltarei sereia
ocultada nos teus olhos!

ana paula lavado © 


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

QUANDO AS ÁRVORES CRESCEREM



Quando as árvores crescerem

Não olhes para mim, que eu vagueio pelas ruas
desde que germinei. Os tempos modernos apenas
alteram as plantas, silenciando a cadência
das palavras. Explicar-te-ia as minhas escolhas
mas as pedras da rua continuam fascinantemente
iguais às de outrora. Duras e retorcidas em feldspato de rocha
metamórfica.
Quando as árvores crescerem, colherei as pétalas dos seus
frutos, e delas construirei os mais belos caprichos. Saberás
conhecê-los pelo meu perfume. Esse, que também
se mantém inalterável, não porque o tempo nada mais
tenha concebido, mas porque o  pretendo inalterado.
Lembro o dia que te conheci. Lembro tão repetidamente, que 
apenas não me sufoca, porque o faço com deliberação. 
Choquei-te de frente, na porta de uma estação com um nome
sem importância. Importou a vergonha dos olhos
que esconderam o rubor.
E se me olhares, relembro o rubor. Ama-me apenas
pelo perfume dos meus olhos!

ana paula lavado © 


 Fotografia - Francisco Navarro

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

SE OS TEMESSE



Se os temesse

Se os temesse, Meu Deus,
como temo a precocidade do fim,
nos horrores com que projectam maldição,
fugiria ao Mundo, ao Universo
como desígnio de condição.

Sejamos breves, que as constelações não demoram
mais que breves instantes da imaginação.
Se os temesse, Meu Deus,
como presságios de inoculação,
ocultaria os meus vícios de verdade
expurgaria os meus defeitos de imposição.

Se os temesse, Meu Deus.
Ah! Não os temo
nem lhes cobiço a imposição.
Que a sombra lhes engane a sorte
que a exactidão seja mais forte
que a sua vontade de imprecação.


ana paula lavado © 

Fotografia de Francisco Navarro 

terça-feira, 23 de julho de 2013

PASSARINHO



Passarinho

Vi um passarinho numa gaiola
sem voar
E vi um passarinho a voar
sem gaiola

Voo como um passarinho
sem gaiola
E com uma gaiola não voo
nem sou passarinho!

ana paula lavado © 



 ( Fotografia de Francisco Navarro )

segunda-feira, 17 de junho de 2013

SEGURAMENTE



Seguramente!

Seguramente
não sei
quantos dias
viverei
quantas horas
terei
quantos minutos
usarei

seguramente
não sei
de quantas formas
te amarei
de quantas feições
te haverei
de quantos amores
te desfruto

nem que seja um minuto
seguramente
será em todo
será em absoluto!

ana paula lavado © 

Fotografia - Francisco Navarro

quinta-feira, 30 de maio de 2013

COMO O AMOR



Como o amor

Vivo em mim, no espaço, no tempo e na vida.
Contrária ao ocaso, renasço os dias plantando
raízes sãs, para que floresçam todas as primaveras.
As flores iluminam a existência. Como o amor.

Em toda a parte te encontro. Nas rosas, nos jasmins, nos lírios,
nas papoilas,
nas gotas de orvalho que vagueiam pela manhã.

E quando as flores fenecerem, as raízes
subsistirão firmes no infinito. Como o amor!

ana paula lavado © 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

À NOITE




À noite

À noite, regressa o silêncio.
Fechamos as nossas bocas
como se não fosse preciso dizer mais nada.

E amamo-nos silenciosamente!

ana paula lavado © 


quarta-feira, 3 de abril de 2013

TANTO O AMOR




Tanto o amor

Tanto o amor
e há tão pouco.

Não como o meu
ou como o teu,
amor louco.

Mas o que se fala
que anda de boca em boca.

Ai, esse amor
é coisa pouca!

ana paula lavado © 


segunda-feira, 25 de março de 2013

O MAR




O mar

O silvo manifesta-o bravio
Onde as vagas naufragam navios
E a cor enegrece o horizonte.
E eu olho-o com a amplidão do mundo
Na perpétua viagem, de olhar fecundo
Bebendo eternamente da sua fonte.  
  
Os que não vêem a sua imensidão
Sinto-lhes pena, vivem de solidão
Das imagens mortas do destino.
Não entendem o rosto da lua cheia
Não tragaram as águas da maré preia
Não amaram o seu fulgor paulatino!

ana paula lavado © 




quarta-feira, 6 de março de 2013

QUE MAIS TE POSSO DIZER, SENÃO TERNURA!




Que mais te posso dizer, senão ternura!

Que mais te posso dizer, senão ternura!
Todos os meus passos caminham de encontro
ao perfume da tua boca. E nela me encho
de todas as emoções que o corpo reclama.
Sente-as no meu peito, vê como flama
nas palavras misteriosas que invento.
Perdoa, meu amor, este atrevimento
esta ousadia de querer tão insanamente
as pálpebras dos teus olhos contidas
nas minhas. Que mais te posso dizer
senão ternura!
De todas as coisas, a mais pura
é amar-te assim, tão ternamente.

ana paula lavado © 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

ERGO AS MÃOS




Ergo as mãos

Ergo as mãos a Deus e peço clemência
que nesta escravatura já muito pequei.
Sei que não sou límpida, sei que não sou pura
nos andarilhos das vielas por onde andei.
Não há pureza que se glorifique nesta humanidade
não há glória que não padeça de impunidade
não há rei nem lei que nos comande.
Sou produto da perversa infâmia
sou escrava da impiedosa maldição.
Não creio na verdade, não creio na razão
não creio na decência da grandiosidade
não creio na compostura de qualquer condição.

E em Ti, Deus, que ainda creio
rogo o ensinamento da verdade.
Já não me restam muitos futuros
e em todos sobeja ambiguidade.
Desapega-me da violência da hipocrisia
destrona os reis da dinastia
que fazem da ciência podridão.
Sei que não sou pura, não.
Mas antes de decretares o meu final
sacia-me a fome de verdade
sacia-me a procura da razão!

ana paula lavado © 

 (foto da internet)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

VOLTEI AO MAR




Voltei ao mar

Voltei ao mar
Porque nele me engrandeço

Na alga pura
Pouso a minha boca

Sente a minha boca
Molhada de sal

Que da tua boca trarei
O beijo que careço!

ana paula lavado © 

(foto da internet)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

PODEIS!




Podeis!

Podeis matar-me os pés
Se deles retirardes a carne e o sangue,
Podeis atar-me a mãos
Para que elas não verbalizem quaisquer paradoxos,
Podeis mutilar-me o corpo
Para que dele não expire qualquer sombra de glória,
Podeis retirar-me a tinta, a caneta, o papel,
Desmentir as minhas frases interditas
E rasgar a sombra da minha pele,
Podeis ocultar o meu vício de verdade,
Podeis negligenciar a minha força de vontade,
Podeis até dizer que não existe quem sou,

Mas jamais calareis o grito da minha voz
Jamais roubareis o caminho por onde vou!

ana paula lavado © 

pintura "el grito" de edvard munch

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

PALAVRAS




Palavras

Não te digo palavras infecundas, meu amor,
Que delas terás apenas prazer efémero.

Dou-te o silêncio das letras,
O gesto dócil das minhas mãos
Quando percorro o teu corpo
Em busca de alimento.

Será o tempo o escultor
Que me trará a felicidade dos dias.

E no prolongar dos dias
Dar-te-ei a fecundidade das palavras.

ana paula lavado © 


(foto da internet)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

AS TUAS LETRAS




As tuas letras

O meu poema tem as tuas letras
E em cada uma o meu anseio.

Porque as dispo assim
Tão de repente?

Sabem a mar, quando as concebo
Sabem a amor, certamente.  

ana paula lavado © 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ÉS TANTAS VEZES O LENÇOL




És tantas vezes o lençol

És tantas vezes o lençol
Que cobre a nudez do meu seio
Que sinto, nas noites que não tenho
O lençol do teu corpo em anseio.

E os afagos! Ah os afagos
Com que arrendas a cor dos meus dedos
São palavras que murmuram na pele
Como as ondas dos nossos segredos.

E quando à noitinha me desnudo
E te entrego o meu corpo por inteiro
És tantas vezes o lençol
Que cobre a nudez do meu seio.

ana paula lavado © 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

ELES LEVAM TUDO




Eles levam tudo

Soltem os uivos à noite
Porque o chão já não tem uvas.
O mar está seco
Mesmo sem estio
Como se o leito de qualquer rio
Já não tivesse imensidão.

Eles levam tudo
Eles levam tudo
Até as uvas do chão.

E vós que direis?
Açoitados no corpo
Fustigados na alma
Roubados na honra
Extorquidos na justiça
Não sois mais que a cobiça
Da devassidão do poder.

Eles levam tudo
Eles levam tudo
Até o pão para comer.

E o povo morre à fome
Morre à fome sem ter pão.

Eles levam tudo
Eles levam tudo
Até as uvas do chão.

ana paula lavado © 

(foto do google)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

VERSO



Verso

o claro silêncio das palavras
plácidas ou inquietas
no espaço inefável do universo,

plasmadas uniformemente
isentas de risco calculado
são a linha improferível de um verso.

ana paula lavado © 

 (foto do google)

A TUA BOCA



A tua boca

O que desejo tantas vezes da tua boca
Esmerando os anseios, por ser tão pouca
As vezes que a tenho por inteiro.

E quando a tenho, que mais eu quero?
Tenho tudo, tudo aquilo que espero
Fazer da tua boca, o meu cativeiro.

ana paula lavado © 

(foto do google)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O MEU POEMA SEM NOME



O meu Poema sem Nome

De que nos serve, na quarta à noite,
naquele bar de artistas,
confundirmos a personagem
e tomarmos para nós
o papel principal!
Nem a solidão nos abandona sem deixar recado,
nem as palavras que são ditas
com coragem ou com despudor,
nos alheiam da nossa memória.
Os olhares vagueiam,
os rostos transfiguram-se,
distraídos do cansaço
ou submersos num copo de agonia!
Esquecem-se as vontades e as dores,
enquanto a noite
se prolonga e desajusta da hora marcada.
O silêncio absorve-nos, arrebata-nos
e alheia-nos da verdade.
Só a solidão se senta a nosso lado e nos provoca.
Sorri, maldosa e incomplacente,
e vai-nos enchendo
o copo vazio com outra dor.
Mas a alma permanece intacta.
Resiste estoicamente,
trazendo dentro de si mais uma poesia sem nome,
dolorosa ou sem pudor,
que vai enchendo de ouro
um qualquer papel amarrotado
onde se escreve
um qualquer poema sem nome!

ana paula lavado in UM BEIJO...SEM NOME, Corpos Editora, 2008

(aguarela de Henrique do Vale)